mother

Sempre que eu tentava ela tinha uma desculpa pronta. Parecia um arranjo teatral, ora um ora outro, numa dinâmica miserável entre a vontade e a falta de ânimo. Deixava a impressão que se falava do fim. Sugestões disto, sugestões daquilo, na tentativa de exaltar algum repúdio pela situação em que estava a viver. Era claro o desafio que se impunha, mas ela nunca o assumiu como tinha feito antes.

Tenho memórias de garra e luta que me foram gravadas pela clara atenção à sobrevivência, à prevalência e à minha própria superação pela mesma pessoa que agora me estava a fazer confrontar o oposto.
Não em mim, mas na atitude dela.
Não como desistência, mas como resignação.

O caso nunca se agravou demasiado, manteve-se como uma tendência de lamúria constante. Proveitoso para qualquer situação, como uma ferramenta poderosa a favor do declínio auto infligido, – o qual sabemos, não poder ser invertido. Este caminho inclinado, pende para o irrefutável momento em que nos opomos a nós, à nossa própria existência e dele só podemos definir a gravidade da inclinação. É variável, sempre consoante o momentum que pretendemos após esse fim, após o nosso tempo presente. Por isso lutei, no início.

Também eu me resigno, não por mim mas pelo respeito que tenho pelos outros e ela tem tudo o que é meu. Ou será o oposto? Orgulhoso e teimoso, mantendo a minha inquietude sobre o assunto, mantive-me firme na decisão de acompanhar alguém que merece o meu respeito e não me exige obrigação ao cuidado. Mais do que impor a suposta normalização do bem estar, posso, podemos, ajudar a manter a sanidade dessa decisão por muito que nos ferva o sangue ter que o aceitar.

Este paradigma do respeito é uma mensagem difícil de passar. Como aceitar e respeitar? Como absorver a abordagem de alguém que na nossa perspetiva está no caminho oposto às nossas próprias decisões e conselhos? O que fazer e que posição tomar? O extremo, reacionário e agitado pode resolver realmente algo ou define somente a inevitável ruptura ao escalar os termos de uma decisão que nunca foi nossa à partida?


Para muitos as respostas são simples, mas quando o caso é a nossa própria mãe, desafio qualquer um a ter o sangue frio de dizer que sim, que são simples. Não são, e aceitar isso fez-me respeitar a mim próprio. Esta transição permitiu que a calma e a ponderação me invadisse com a magnanimidade benevolente de um carinho singular, o da construção pessoal como um ser, humano que sou.

Agora sim, estou em paz com a minha vontade de ajudar.
Agora sim posso cuidar como sei, do que sei ser importante cuidar.
Agora sei que não cuido do corpo de alguém na tentativa de prolongar essa existência egoísta para mim.
Agora sei que o que tenho de volta me constrói como o filho que sou e ainda mais como o homem que se prolongará após o tal caminho inclinado.
E comigo levo a minha mãe, e não somente a memória, mas a essência da mulher que foi e sempre será, quem me permitiu ser assim.

May 21, 2020