design systems

O design enquanto disciplina é obra de uma elite intelectual, informada, interessada e participante. O design enquanto manifestação é facilmente confundido com o resultado prático e seguro da solução visual. A metodologia corrente da passividade institucional sobre este assunto não irá transformar um assunto de nicho para uma realidade/generalidade no curto prazo ( ou sequer alterar essa relação de acesso e difusão ). Há quem não queira saber do futebol como há quem não queira saber quem, por comparação a um cão de rua, sugeriu o cinismo como doutrina.

October 18, 2020

Sejam coisas, ações, verbos e sobretudo adjetivos tudo cabe à partida. Mas há também aquilo que não, e segue no porão. Vistas, listas, pontos de eleição, paragens, paisagens lendárias e outros momentos futuros imaginários, são a carga pesada que é levada a sério. Ou serão apenas um #checkpoint a assinalar numa qualquer #bucketlist, numa demanda em forma de missão que nos obriga, pelos outros, a normalizar a nossa própria viagem? São estes nossos hábitos habitantes.

Mas será que voltamos ainda mais carregados? Será que o peso é maior à chegada do que foi à partida? Será que o que transporta vem afinal carregado de coisas novas, ou tem só o pó superficial deste agora?

Esta procissão de relíquias sagradas tem um propósito claro, eu é que ainda não sei qual é. Talvez no futuro saibamos olhar para trás e entender estes fluxos migratórios temporários ( como fazem os pássaros para sobreviver, ou os gafanhotos para viver ) , numa expectativa de aprender, se o que procuramos quando por aí andamos são recursos, ou é só a humanidade de querer encher relicários andantes. Uma vaidade de quem se cultiva ou a vaidade de outro #milestone alcançado?

Na ironia entre quem parte e quem chega, entre quem se adapta e quem se impõe, vejo muito clara a forma desvendada dos caixões que se passeiam pela rua acima, rua abaixo, cheios de um pouco de todos nós.

Qual a religião deste momento? quais as crenças que nela habitam? quais os deuses a quem se reza? qual o perdão final de quem carrega relicários, cheios de ouro e novidade? Chamar-se-á Economia Turística a deusa que guia essa mesma procissão?

Relicarium 2019 @SharedInstitute – Porto, Portugal

O conteúdo real é afinal uma amálgama de intenções, e não pode ser mais do que isso. Falsetes pessoais que definem uma fraca saúde mental e social, quase sempre comparativa pelos media que tanto impressionam. O indivíduo consciente dissociado do objeto e dependente da experiência para validar-se perante o mundo. Quem comanda quem? Onde está o controle?

Os comerciantes de relíquias e objetos sagrados pessoais traficam a nossa matéria invisível, aquela que se esconde em nós. Cedemos : na oportunidade de vender uma memória conservada para sempre; no futuro possível do argumento egoísta de uma conversa centrada em nós; muitas vezes autista; numa partilha que guarda sem vergonha esta viagem como mais um elo do percurso assoberbante que já não é a vida.

“Hoje eu sou isto e muito devo ao que colecionei.”

Serão muitas as vozes assim, tantas quantas as que deambulam porque sim, sem mais sentido, porque a vida ( económica ) lhes permite essa forma boémia de andar por aí. Afinal esse capital será sempre a carga que chega e a carga que parte.

Porto Design Biennale após,

workshop 1 | 10–12 maio 2019
DESIGN SYSTEMS: IMPOSSIBLE METHODS
Por Luiza Prado & Pedro Oliveira ( A Parede )

July 3, 2019

Em meio solúvel, em oficina, estúdio ou gabinete é onde a densidade do criativo do design melhor se enquadra e onde este participa com a marca, a estratégia, o tema e o suporte numa convergência de interesse tão real quanto pessoal e efémero. Em solubilidades diluídas como as de agência ou até de consultoria ( em contexto interno ou externo à equipa de projeto ), a produção do design é um paradoxo de aceitação e canibalismo intelectual, uma sodomia criativa e sobreposição da competência pela técnica e nunca pelo conteúdo.

Em qualquer dos casos, raramente alguém sabe bem o que fazer a partir do como fazer e não do quem fez o quê. Vale tudo e fica bem desde que a prevalência seja a da novidade, a nova. Fazem-se coisas que soam bem, parecem bem e não se garantem irrefutáveis : seja pelo profissionalismo criativo seja pelo incontestável processo de trabalho. Obviamente que a afetação irresponsável da criação a um profissional idealista e sem escrúpulos de si próprio para si próprio não ajuda e claro, deturpa a imagem do processo a quem detém o poder da comissão.
A culpa do design é dos designers e o estado atual dos meios de produção a estes dizem respeito, exclusivamente : senão exigimos o respeito a nós próprios e à profissão, nunca seremos prendados por ninguém ( mercado, academia, outros sectores ) com nada menos do que isso. A este cenário devemos afetar a própria definição de meios de produção : plena de sarcasmo e ambiguidade, voltada aos media, confundindo tudo e todos nos canais e nas ferramentas, desprestigiando os suportes e os conceitos basilares de aplicabilidade, legibilidade e de acesso universal, como se fosse demasiado difícil integrar e mesmo assim, o trabalho ficar com bom aspeto. Preguiça, falta de capacidade, ou pura e simplesmente a banalização do ensino da arte e do design.
São estes meios de produção que me interessa discutir, aprioristicamente e na base fundamental das gerações de criativos que são despejados em mercados de produção sem meios reais de criação. Propor novos sistemas metodológicos, desbloqueadores do acesso pela compreensão e entendimento do verdadeiro papel do criativo no design de comunicação seja ele mais ou menos gráfico.

Porto Design Biennale

April 29, 2019

Viver na obsessão pela compulsão visual, popular e folclórica, essa das imagens efémeras relativas ao influxo do trauma intelectual de hoje, na construção cíclica do presente POP, enquanto meio cultural ( ? ). Afinal é nesta presença global das imagens que se refletem em nós os conceitos de contemporaneidade para os futuros olhos da história passada; é ainda neste limbo entre a realidade sentida e a realidade inventada, que nos deixamos manipular desde a fonte da informação, até ao mais íntimo e ínfimo detalhe ficcional que nos impõe como verdade e até estilo de vida.

Onde assenta então a crítica? Individual ou coletiva? A prevalência do meio ou da mensagem? Paradigma dos tempos ou paradoxo da própria espécie? O antropocénico ou a egocência? Perguntas ou dúvidas?

As marcas, os pontos notáveis e as inflexões de raciocínio, assentes na epítome do singular ou do coletivo, fluem no diálogo do contacto inter dimensional, virtual e por vezes, também irreal. Os pontos de contato, as marcas entre os humanos que necessitam de ligação efetiva à linha temporal global, como se a sua sanidade dependesse disso mesmo – do tempo que acham que partilham com os outros. A alternativa não é dada pelo contato com a realidade mas antes pela leitura e interação interpretativa que temos com a território mental que construímos como paisagem cultural. Este conceito, determinista e constitutivo de uma construção individual, nunca foi a verdade. Apetece-me identificar os fatores que nos posicionam a todos perante a noção concreta de tempo e espaço cultural, só para os distorcer ao limite da sua própria razoabilidade e aí, refletir numa sobrevisão omnisciente como num legado para esse grupo de humanos com os quais ainda partilho a minha linha temporal.

É este o verdadeiro paradoxo : entre a vida real individual e o cenário coletivo que nos é imposto; entre a noção de participação induzida e a completa passividade autoral; entre os meios de produção regimentados e as políticas da criação ética; entre a linha temporal da história ( antropológica, biográfica e etnográfica ) e o tempo cultural da massificação capital deformada em estória ( historieta ); é aqui que situo a cultura POPular, onde procuro reconhecer cada vez mais como um ciclo interminável de um tempo presente que se extingue no momento em que é identificado.

Porto Design Biennale

April 2, 2019

A prática do processo e da criatividade implicam urgentemente uma revisão do sistema metodológico corrente. Denso, pesado e complexo, sem a exatidão que garante processo até ao resultado, apoia-se demasiado na gratificação do produto final, da estética insustentável da moda e do efémero. É perante a curadoria interpretativa dos modelos de pensamento institucionalizados ( tanto quanto da pedagogia estratificada pelo público orgânico, pelo tema e pela mensagem ) que os conjuntos de linguagem devem formar os novos atores do campo do design e da criação. A prática curatorial é um intento auto infligido, que não se treina ou se adquire sem a noção concreta de que esse estilo de vida afeta não só a nossa visão imediata, como também influencia os nossos contatos inter sociais.

Só pela autoria é possível delinear o caminho equilibrado entre a comissão e o processo auto iniciado : esta abordagem pode assim seguir livre pela resistência do eficaz e no ganho da eficiência pela irrefutabilidade e nunca do gosto descartável. E é este significado social descentralizado desde a academia que importa entender, seja pelo sentido mais lato da palavra, seja pela epistemologia do entendimento abrangente ao acesso universal e coletivo. A suficiência da narrativa é implicitamente medíocre e não responsabiliza os participantes da mesma forma – seja quem forma ou seja quem se forma – em mar de iguais ninguém vai querer assumir a diferença.

A responsabilidade da construção ( pessoal, profissional, singular ou coletiva ) deve começar pela base estruturante da desconstrução e veementemente criticar os modelos, pelos dogmas e pela leitura colonizada dos sistemas de produção ocidentais. Para suprir esta falta de crítica consciente e da prática curatorial como razão profissional, o fator de interesse inicial é o que deve ser dedicado ao fator decisão. As tensões visíveis entre os meios de produção bissectam o mundo atual entre as práticas ininteligíveis, próximas do domínio artístico do design e entre a massificação comercial de mensagens estéticas obsoletas e irresponsáveis. Seja qual for o meio, o público, a instituição, a aposta no fator decisão deve simplificar o real acesso ao significado, à promoção consciente do uso necessário, tanto quanto de outros termos mais imediatos.

Esta é uma falha de base que somente a revisão processual, tanto quanto das políticas de criação, pode evoluir e fazer avançar pelo movimento cíclico da decisão, do ímpeto, da iniciativa e da investigação, da inquietude e da infinita vontade cruzada na ambição do discurso notável e responsável metodologicamente.

Porto Design Biennale

March 28, 2019