antecipação

A presciência, seja ela sobre a vida ou da própria morte é um exercício fugaz, com um impacto residual, prontamente substituído pelo destino incontrolável.

Eu não me sinto ao volante de nada que não da própria sensação de controlo.

Determinismos em perspectiva, tudo o que faço pode ser então determinado a partir do meu ponto de origem, interligado com o meu grupo direto de relações e influenciado pelo nosso grupo alargado e global de elementos orbitais. Cientificamente possível, haja potência suficiente para o estudar, este caso é possível. Relacionar a minha vida com a minha vivência na forma em como o indivíduo se insere no processo coletivo.

Eu sou o que serei amanhã. Eu sou o que sei depois. Eu sou o que ainda não sei.

Nada do que eu possa antever será verdade, tudo depende da próxima interação concluída, intrinsecamente dependente do nada. Volátil, inesperada, espontânea, fatal. Sem qualquer regra possível, nem sequer afeta pela mecânica quântica do próprio significado de aleatória. A vida sem destino é afinal um sonho ou a própria vida explicada pela realidade?

Por um lado explicamos tudo, por outro nada se pode explicar. O binómio bi polar prevalece na nossa demagogia ocidental. É aqui que o limite da nossa compreensão segue pela linha do conforto e da resignação. Há mais hipóteses, sejam extremas, híbridas ou complementares mas há mais hipóteses.

A solução binária encaixa perfeitamente na política de supremacia e divisão segregatária da sociedade humana. A favor ou contra, connosco ou convosco, preto ou branco. Esta definição exige a leitura de uma barreira, um lado, uma convicção, um poder. E basta falar sobre o assunto, apenas identificar os pressupostos para sentir o erro, a falta e a inadequação desta proposição. Uma parte, só.

No entanto, quando penso no indivíduo, a parte, só esse ser, o ponto singular da existência ( e do tal ponto de origem ) penso na definição de unitário. Só essa unidade faz o conjunto e não precisa de mais partes para ser o que é. Precisa do coletivo para prevalecer e prosperar é certo, mas de todos os pontos possíveis com quem se pode relacionar, pode ser o que é com um mínimo de um. Ou dois, se pensarmos na génese biológica do próprio ser animal.

Não pretendo relacionar temas tão díspares como causais, mas não consigo deixar de pensar que precisamos de mais alternativas a partir do ser individual. O que vejo provado e inalterado é o oposto do que descrevo : cada vez menos hipóteses e cada vez mais a diluição da unidade.

A escolha deixou de fazer sentido ou então será aleatóriamente a causa da nossa perdição coletiva. Binário de novo este reacionário viral, contamina demasiado tanto a decisão individual como a coletiva.

Precisamos saltar fora deste ciclo interminável de destruição intelectual. Preciso de uma nova ordem de nada, responsável pela leitura correta das postilhas fundacionais da humanidade que nunca serão escritas, preciso viver nas suas múltiplas aplicações e degenerações positivas ou não, aceitando nada menos que uma construção procedural, genética e sem necessidade de catalogação de todos os envolvidos nesta visão da humanidade.

É assim que antecipo a minha própria liberdade, não porque alguma vez estivesse preso mas porque decidi ver diferente do que me mostraram passado, presente e futuro.

Vivo assim os meus dias, plenos de tudo o que posso e tenho ao redor, vivo assim com a gente que adoro, e no seio do seu amor.

May 22, 2020