Vivi num tempo em que o plástico não se decompunha e em que a meteorologia era a notícia do dia porque matava quem vivia em pobreza.

Nesse tempo compravam-se carros elétricos para viajar sozinho e evitar a dependência de combustíveis e ainda assim os transportes abarrotavam de gente nas cidades.

Havia uma taxa de reciclagem, uma espécie de jogo infantil, que dava dinheiro de volta a quem cumprisse o mais básico pressuposto do seu lixo.

Havia de tudo pela rua, misturado com gente, que fazia do lixo algo normal. Haviam até recipientes que transbordavam e manchavam o ar de cheiros que chamavam animais e pedintes.

A guerra era natural. A herança de ter crescido em conflito durou gerações e os direitos eram sempre relativos a partes do mundo terrestre.

As divisões administrativas existiam para impedir o acesso livre ao básico e manter uma ordem geral coordenada. Vivia-se em ciclos, de matérias, bens, valores e outros princípios.

Os tais pedintes, e outros resistentes que tais, eram o princípio do fim que se esperava: os que ajudaram a mudar. Sem o seu desespero nunca teríamos sido capazes do que somos agora.

Havia dinheiro real e as pessoas viviam para o gastar, enquanto outros poupavam na esperança de uma segunda vida – mesmo quando era real.

Apesar de tudo, o planeta equilibrou a agressão global e tudo evoluiu de forma natural.

Que tempos!