Considerando a impossibilidade de justificar as práticas a não ser pela revelação sucessiva da série dos efeitos que se encontram na sua origem, a análise faz desaparecer, em primeiro lugar, a estrutura do estilo de vida característico de um agente ou de uma classe de agentes, ou seja, a unidade que se dissimula sob a diversidade e a multiplicidade do conjunto das práticas realizadas em campos dotados de lógicas diferentes, portanto, capazes de impor formas diferentes de realização, segundo a fórmula:

[(habitus) (capital)] + campo = prática.

(Bourdieu, 1979, p. 94)


EQUATING an UPDATE

A ideia de uma oposição radical ultrapassa o pessimismo estrutural de Bourdieu e até a formação de subcampos como um risco ao proprio habitus e exclusão.

  • Habitus: enquanto as disposições incorporadas, na forma como falo, ando, tenho gostos e esquemas mentais que absorvo desde a infância devido à inserção numa determinada classe social – a estrutura social que se tornou corpo.
  • Capital: avaliado nos recursos e na posse, não apenas dinheiro (capital económico), mas também conhecimento, diplomas e competências valorizadas (capital cultural) e a ainda pela rede de contactos (capital social).
  • Campo: o jogo como o ecossistema onde opero (ex: o campo académico, o mercado de trabalho, o mundo da arte) e onde cada campo tem as suas próprias regras e dita que tipo de capital é valioso nesse contexto delimitado.

Estes habitus e capital determinam a posição e como tal, a entrada num campo e a forma como jogo o jogo gera a prática. Esta é a fórmula que expõe a reprodução social e como o sistema se mantém igual a si próprio.


[(queerness) (punkness)] + politicness = philosiphness of practice


Ao observar a mecânica de Bourdieu, interessa-me inverter o objetivo desse fenómeno, pois enquanto a fórmula bourdiana explica como o sistema nos molda, eu preciso explicar como atualmente nós hackeamos, subvertemos e assim respondemos ao sistema vigente.

  • Queerness: um anti-habitus que confronta o habitus tradicional que modela o corpo para a norma (heteronormatividade, papéis de género lineares) e assume a recusa dessa norma na vivência de uma corporalidade dissidente.
  • Punkness: o capital de fricção, que decide não acumular diplomas ou dinheiro para subir no sistema e ao invés acumula autonomia, assumindo uma estética do choque, resistência, confronto e divergência pela desobediência e pela recusa ativa de submissão; o que ganha valor precisamente por rejeitar o valor do mercado tradicional não é o conflito mas a subversão sincera e inclusiva do sistema.
  • Politicness: o meu campo individual, mas transformado num espaço de disputa ativa que determina como eu não entro no jogo para seguir as regras e acumular pontos e antes, ajo com uma consciência política alinhada e afinada com os valores e princípios necessários para expor as contradições do meu próprio jogo.

Ao juntar a dissidência de corpo e identidade (queerness) com a ética de confronto e autonomia (punkness), operacionalizado dentro de uma consciência macro (politicidade), a prática deixa de ser apenas comportamento e eleva-se a uma filosofia de agir e produzir.

Assume+se como uma práxis existencial que usa a ação diária reflexiva como uma ferramenta de libertação e crítica ao sistema que se pretende ultrapassar: nós próprios.