No fim da era em que vivemos, a violência e a sua banalização fazem parte de certos rituais diários.
Guerra, morte, agressão, extermínio e logo a seguir uma dose de consumo, lazer, influência, deboche.
No mesmo intervalo de tempo noticioso é possível assistir a crimes contra a humanidade e a uma promoção qualquer com desconto imediato. Sem qualquer consternação ou vergonha, oscilamos entre a barbárie e o narcisismo num piscar de olhos.
Os nossos cérebros estão a transformar-se em meros instrumentos de receção de mensagens formatadas para a nossa própria absolvição. Tendemos a resignar que o mundo é mau e feio e por isso é que o ecrã ajuda na relativização do sofrimento que existe à distância. Assistimos (incrédulos?) e em seguida, somos imediatamente compensados com a compra de mais um produto supérfluo que nos mantém noticio-dependentes no seio de uma sociedade superficial.
Somos obedientes e somos programados para tal, todos os dias à mesma hora.
Outros, os que recusam este canal, persistem noutros meios relevantes. Mas recusar assistir ao método generalista não significa efetivamente resistir ao fenómeno de uniformização. Por outros motivos, de outras formas, decidir encarar de frente as imagens e os textos que nos passam a realidade longínqua e mesmo assim não nos permite um resultado muito diferente do esperado.
Apesar de tudo, apesar da abordagem (e até da linguagem), conseguimos apenas uma relação com uma segunda, terceira ou quarta realidade.
Ao sujeitar a nossa mente a um sofrimento simulado estamos também a alterar a nossa competência sobre a empatia real. Um processo melhor? sim (admitir uma certa independência dos processos de conformação global); um resultado assim tão diferente? tenho dúvidas (continuamos a validar em reciprocidade estes fenómenos como mecanismos de reconhecimento social e comportamento de grupo).
A verdadeira liberdade surge da autonomia.
A coletividade surge da verdadeira individualidade.
A competente crítica construída a partir do conjunto de virtudes e valores humanos é uma base fundamental para essa implementação de um sentido cívico, social e cultural real. Nenhum ser humano conseguirá ultrapassar a realidade humana mais primitiva até decidir que a sua própria condição se alterou. Assim, ninguém será realmente indivíduo – e aborta toda a teoria de grupo que conhecemos até agora. Esse “pertencer” verdadeiro, essa coletividade ideal, necessita de um indivíduo singular para existir como possibilidade, sequer!
E tudo à nossa volta nos impede de avançar, incluindo nós próprios. Somos corpos colonizados e ausentes de uma personalidade. Evitamos a ideia do singular talvez porque isso é difícil e não nos permite validar as escolhas mais divergentes de uma forma fácil. Por isso somos um pouco de tudo, uma unidade plural infligida, sem pensarmos em ser um pouco de nós, um ser pessoal.
Há excepções que confirmam a regra e há projeções que validam a realidade. Nem todos precisamos ser eficazes, eruditos ou ausentes. Ao sermos solidários com a nossa posição no mundo, estamos a avançar para lá do sistema imposto. No entanto, decidir aceitar o que nos passam sem pestanejar é também uma escolha.
É necessária uma distinção fundamental: a discriminação não pode existir como princípio, valor ou moral.
Quem sou eu mais e outro menos?
Por isso, avançar é decidir encarar o meu mundo real. Sem extremismos e sem violência. Só com empatia e generosidade para com a nossa própria condição poderemos sentir o que o sofrimento dos outros e a sua relação com a nossa condição de modernidade poderá significar.
Precisamos manter bem presente a nossa dimensão material e imaterial no mundo. Sempre em relação ao que somos, ao que damos e recebemos, neste tempo em que nos conseguimos definir como cientes.