Rede Nacional de Escolas Criativas
A mobilização da arquitetura e do design para um futuro promissor e participativo depende de cada um de nós.
A arquitetura e o design, disciplinas com um papel fundamental no desenho dos nossos ambientes e na definição das nossas experiências coletivas, enfrentam um desafio disciplinar crítico: atualizar-se para responder às complexidades e às urgências dos tempos por vir.
A consciência sobre as questões ambientais, sociais e tecnológicas exige uma profunda transformação nos currículos das escolas dedicadas à exploração científica da criatividade em todo o país.
É imperativo que as instituições “que ensinam” e formam os futuros arquitetos e designers se unam em torno de um objetivo comum: a criação de um currículo transformador, acionado por planos de estudo que refletem as necessidades da sociedade contemporânea numa resposta cabal ao paradigma atual, claramente em falha. O currículo é um plano estratégico para atingir a convergência de interesse de uma forma colaborativa, envolvendo docentes, estudantes, profissionais e representantes da sociedade civil, garantindo a participação e o diálogo sobre todas as prioridades do campo.
Um dos eixos centrais deste novo paradigma educativo deve assentar na promoção da participação e da cidadania ativa, relacionando a academia e a sociedade numa simbiose clara, assente na responsabilidade mútua e na resposta concertada e capaz. É por isto fundamental que os futuros profissionais sejam capazes de pensar criticamente, questionar o status quo disciplinar, ser parte de uma proposta desobediente, plena de soluções inovadoras e adequadas aos desafios urbanos e materiais.
A prática da arquitetura e do design deve transcender a mera criação de objetos e espaços, assumindo o seu papel como um instrumento de transformação social, dedicado à integração da criatividade como um desígnio fundamental da sociedade. Deve proporcionar as bases e prosperar colectivamente a partir do conforto e da participação individual.
Este momento determina pela urgência climática exige uma resposta imediata e contundente por parte das nossas escolas. É fundamental que os futuros arquitetos e designers sejam equipados com as ferramentas necessárias para ir além do projeto de edifícios, cidades e objetos para abordagens e soluções totalmente sustentáveis. A integração de conhecimentos sobre materiais, sistemas construtivos e tecnologias inovadoras é essencial para alcançar este objetivo, os quais ficarão sempre aquém de uma verdadeira transformação, se esta não for operada a partir de sistemas e práticas pedagógicas divergentes e multimodais no seio da escola.
A saúde física e mental dos grupos e indivíduos deve ser uma preocupação central na formação dos futuros profissionais. A arquitetura e o design têm um impacto significativo na qualidade de vida das pessoas e esse impacto deve ser analisado na origem, na própria formação do agente que desenha o mundo habitado. É fundamental que os espaços sejam concebidos de forma a promover o conforto, a saúde e o bem-estar psicológico, mas nada será mais importante do que transformar a forma como se aprende o desenho do maior esforço original: desenhar a partir do interior mais pessoal.
Só através da solidariedade, generosidade e empatia verdadeiramente transversais são criados os ambientes que estimulam a interação social, o exercício e a atividade física, o contacto com a natureza e com sistemas urbanos saudáveis, como elementos cruciais para uma vida mais ativa, partilhada e feliz.
Outros temas de grande relevância estão em falta na discussão geral e devem ser abordados nos novos planos de estudo. A inclusão social, a diversidade cultural, a ética profissional, a economia circular e até certo ponto a digitalização, são assuntos fundamentais para que os futuros arquitetos e designers sejam capazes de trabalhar em equipa, de comunicar de forma capaz e adaptar-se a uma área da sociedade em constante mudança.
A atualização e adaptação dos conteúdos pedagógicos é um processo contínuo que exige um diálogo permanente entre a academia e o mundo profissional. Por isso, a criação de redes de colaboração entre as escolas, as práticas profissionais e as instituições públicas é fundamental para garantir a validação do interesse por esse caminho tão importante para um mundo melhor. As redes existentes podem ser ampliadas numa perspectiva de reconhecimento, estabilidade e consolidação das questões fundamentais e só depois afirmar uma nova e verdadeira plataforma de discussão, construção e criatividade. A instituição está em perda, não por uma crise de valor ou capacidade, mas porque a atualização tarda e é evitada a partir da raiz.
Devemos assumir um processo de mobilização constante, em que a arquitetura e o design têm um papel fundamental a desempenhar na construção de um futuro melhor, mais justo e equitativo. É agora consciencializem para relacionar os profissionais capazes de responder aos desafios da contemporaneidade desde a sua formação, renovando desta o papel da academia na sociedade.
O reconhecimento sobre a criação de um plano de estudos atualizado e abrangente é o primeiro passo para alcançar este objetivo. Inevitavelmente cíclico, este processo deve partir da vontade de transformação contínua, evitando rupturas violentas e processos abruptos, elencando a responsabilidade de um trajeto acompanhado, um percurso partilhado e acessível a todos sem discriminação.
Em vez de confronto e agressão devemos optar por um movimento conjunto de ativação e participação em construção perpétua, numa chamada à ação que une toda a comunidade académica em torno de um projeto comum, a escola.
Resumo:
- promoção da participação e cidadania ativa
- a conexão entre a academia e a sociedade é vital e onde os futuros arquitetos e designers precisam ser agentes de transformação social, capazes de ouvir, entender e responder às necessidades das comunidades
- pensamento crítico e inovação
- só ao questionar o status quo e procurar soluções “desobedientes” e criativas admitimos como motor de um processo em progresso constante pela convocação de mentes curiosas e corajosas sobre a transformação
- urgência climática e sustentabilidade
- é inevitável consolidar a integração de conhecimentos sobre materiais, sistemas construtivos e tecnologias inovadoras como uma necessidade presente na formação para lá da teoria e incorporar práticas pedagógicas que fomentem a ação e a experimentação no mundo real
- saúde e educação física/mental/espiritual/social/intelectual
- o impacto do ambiente construído no bem-estar das pessoas é inegável e por isso só ao formar profissionais conscientes dessa relação seremos capazes de projetar espaços que promovam a saúde e a educação como ferramentas curriculares essenciais ao projecto
- inclusão social, diversidade cultural, ética profissional, economia circular e digitalização
- os pilares modernos de uma prática profissional responsável e relevante no mundo contemporâneo, integrados nos currículos e planos de estudo assumindo o papel fundamental na posição pedagógica crítica dedicada ao empoderamento de practicantes resistentes e resilientes, em colaboração contínua, atualização dinâmica e constante entre a academia e o mundo profissional
Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa; Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto; Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra; Departamento de Arquitetura da Universidade de Évora; Departamento de Arquitetura e Multimédia Gallaecia da Universidade Portucalense; Faculdade de Arquitetura e Artes Universidade Lusíada de Lisboa; Departamento de Arquitetura, Artes e Design do Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; Departamento de Engenharia Civil, Arquitetura e Ambiente do Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa; Departamento de Arquitetura e Urbanismo do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa; Departamento de Engenharia Civil e Arquitetura da Universidade da Beira Interior; Escola de Arquitetura, Arte e Design da Universidade do Minho; Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Fernando Pessoa; Escola Superior de Artes e Design.