RESISTIR

Errante[1],

por entre paisagens de carinho.

… um desenho ilustra mais do que mil ações, quando é feito por olhos que comandam mãos certas.[2]

INTRO, poucas palavras a partir da inconformada[3]

O não conforme, a desconformidade e o inconformismo, são termos paralelos num único ponto no nosso horizonte: resistir.

O não conforme é algo que não cumpre um determinado requisito. É por natureza um desvio de uma linha pré-estabelecida (ou pré-acordada) entre partes que esperam de si um determinado cumprimento. Geralmente surge afeto à conformidade de uma norma, uma regra, ou um princípio elementar. Esta relação entre partes exige uma questão de equilíbrio, mediada por argumentos que por nenhuma razão poderão ser evitados ou escusados de uma decisão em comum. Equilíbrio esse que obriga a que todos os acordos entre as partes (e até os acordos singulares, feitos a partir de uma única parte: o eu), são primeiro palavras de honra e só depois, a frieza abstrata de uma lei, um regulamento ou uma ordem.

Como uma dessas partes, somos enquadrados pela categorização tipológica que constitui o contrato social e neste caso em particular, somos por definição: os discentes. A minha primeira não conformidade parte daqui, da necessidade quase obrigação em hierarquizar uma relação, seja no plano ou pelo eixo. Esta desnecessidade provoca-me repúdio pela perceção da discriminação implícita aplicada aprioristicamente (à minha posição enquanto a outra parte), como alguém do outro lado da trincheira. Eu sou, antes que me seja preciso acusar: a personificação da responsabilidade do meu contrato social enquanto discente – uma parte. Sou e sei o que isso significa: ser uma fração, ativa e interessada, participante, envolvida num acordo que até pode ser conforme, quando se encontra em equilíbrio nas suas premissas e entre todas as partes.

Até lá, não me conformo.

A desconformidade, é apenas uma lacuna, uma falha ou falta, de conformidade. Acima de tudo é uma discordância entre as partes de um contrato cultural, que pretendem entre si a noção de conformidade como o ponto de partida para uma relação proporcional. Ser uma relação por definição proporcional, implica que as atividades e as ações entre as partes se equilibram, convergem e produzem um resultado preferencialmente superior a zero, e nunca no intervalo dos valores negativos. Esta produção harmoniosa de resultados entre as partes, a que podemos intitular de prosperidade, é contruída como um bem comum. E é este valor, a propriedade coletiva, autoral e participativa, que deve ser aplicada a partir da noção do seu integrante, e não no proveito de um mero interesse individual. Por isso o valor do bem comum como uma exigência mínima, relaciona-se com a participação das suas partes e expele os abjetos, ausentes e anónimos. Em resumo, a desconformidade é uma ferramenta analítica, que permite a identificação de uma assimetria, como algo que pende, é tendencial e não detém a totalidade do seu próprio teor. Neste caso, assumo-a como uma falta pedagógica na formação de uma comunidade (um coletivo docente e discente) e como tal, uma falta de todos os seus indivíduos.

Até lá, procuro educar-me.

O inconformismo é em si um termo exigente e ambicioso, é um ismo. É um nome, uma atitude, um comportamento e é obviamente, o contrário de conformismo. O inconformismo é o nome mais substantivo da representação da atitude contrária, da oposição às normas dominantes num determinado contexto social que uma certa comunidade pratica e que se pode observar como o seu comportamento, num tempo e espaço definitivo, temporário ou transitório. Partir de uma certa condição etnográfica na sua base implica aceitar que a perceção externa deixada aos leigos, seja a da repulsa ética a valores e a certos princípios de um espaço-tempo geográfico. Talvez por falta de aceitação que estes corpos externos são efetivamente leigos, confunde-se uma certa noção de resistência (não necessariamente de oposição, apesar do termo inconformismo implicar o contrário de conformismo) e podemos assim ser confundidos como praticantes do anticonformismo. O mecanismo é complexo e precisa de um acompanhamento disciplinar assente num compromisso com o termo que, diria estar ao alcance de muito poucos.

Para muitos, o inconformismo é só um estado. Para mim, basta.

Em 2022, tive a honra de observar e participar numa construção coletiva, elegantemente erigida a partir de cada um dos seus indivíduos. Simples e descomplexada, esta construção intencional foi feita em torno da noção política de um termo que extravasa o seu próprio significado. Esta assembleia de construção foi radicalizada na sua génese, ao decidir-se por uma variação do seu termo de origem masculina, para uma conjugação pela outra pessoa do singular e assim, optou pelo seu potencial binário – o inconformado, publicação, teve como parelha a inconformada, a exposição. Um silogismo num equilíbrio inusitado a partir do jogo das palavras potenciou as relações de conformidade entre conteúdos, participantes e observadores.

Até hoje, penso que ainda não processei a sua real importância e impacto (no meu eu e) nas outras partes. Ainda hoje, penso como em certos momentos tudo se alinhou como um ponto notável nas vidas que claramente afetou. Como uma música que significa mais do que a sua mera audição. Como uma experiência corpórea e incorpórea, coletiva, como uma sinfonia que arrepia.

Uma tomada dupla, o inconformado e a inconformada agiram como um conjunto indissociável de conetores com a comunidade em torno desta noção de (sim ou não ou in ou des) conforme. Uma chama, uma chamada à participação. Uma nova forma de reivindicar, pelo sublime do ato escutado no silêncio da sua própria força. Uma comunidade, em sincronia com as suas inquietações, potenciais e sem paralelo, num estado de resistência pela perfeita noção da sua condição social, cultural e etnográfica. Quase um mecanismo de luto, que permite a cada um de nós avançar para uma sua versão, melhor do que anterior. Sem desejo de querer ser outro, que não eu próprio, um ser próprio.

Nunca menosprezem o poder da vontade comum. Imaginemos a força de uma parte que tem a noção de todas as suas partes, que decide um discurso direto com a surdez de outras partes. Imaginemos que tudo estará “bem” em breve. O quão ótimo será o contrário da crise que se apelida como estado natural da nossa disciplina. O que será (tão “bem”), quando o único ponto em comum entre todas as partes for o quão melhor podemos fazer e não, o que está mal, irreparável. Imaginemos que a INCONFORMADA em 2023 é a continuação do que ficou por dizer, numa nova ocasião de comunhão e partilha. Um observatório enquanto o espectro de prosperidade, que aceita os seus próprios fantasmas como partes de um laboratório vivo, talvez na rampa que rodeia o auditório do seu maior representante.

Até lá, sonho com essa ocasião: uma assembleia inclinada por forma a equilibrar uma certa noção em desequilíbrio, resistir.

RESISTIR, é iniciar o âmago à prática de uma o(posição).

PARTE I

O termo, nas suas diversas interpretações, representa uma incapacidade em ceder ao choque, sobretudo em fluir por entre um campo de diferenças.

Consequentemente, o termo é observável de uma forma generalizada numa prática de defesa, por oposição a uma força que percecionamos sempre como exterior a nós. Essa força, que achamos sempre que nos ataca, obriga obviamente à proteção. Fenómenos como este revelam o quanto uma interpretação do termo e da força é difícil, quando feita a partir da noção de onde partimos para o mais instintivo contra-ataque enquanto mecanismo de defesa. Achamos até que originariamente, estaremos a ativar uma tal resistência (interna ou externa?) à (o)pressão. Essa opressão, (interna ou externa?) manifesta-se compulsivamente pela exigência de firmeza, pujança e determinação na superação da tentação em não-resistir. Somos dessa forma obrigados a resistir, pois essa força é mais forte do que nós, até na própria intenção deste pleonasmo. Nesta (re)ação altamente primitiva perante a incitação ao processo de resistência (re)conhecemos como atitude de base, um ato de vida, de persistência e de perseverança – é só, a tal força.

Consigo identificar no processo de confirmação do fenómeno de resistência que comecei por descrever, um estado doentio do termo, onde o indivíduo é contaminado pelo gerúndio daquilo a “que se vai resistindo”, vagamente. Interpretações sui generis do termo, e do seu tempo verbal, tomam o controlo do seu tempo e apresentam-se como um caminho percorrido do qual não temos uma memória totalmente concreta. Somos provavelmente resistentes passivos, amáveis com a nossa própria complacência. A constatação da existência do fenómeno de resistência não se extingue pelo óbvio, não elimina a necessidade de uma posição cuidada, não evita a necessidade de haver explícito em cada um dos seus agentes a responsabilidade da consciência, do esforço e da eficácia das suas ações, e mais uma vez, no seu tempo. Exige, pelo contrário, uma aproximação determinada e constante a um sistema saudável e próspero de decisões e ideias concretas em direção a algo, e a alguém. Erradamente, esta simples estrutura de autoestima é constantemente substituída pela noção da exposição a um (possível) perigo iminente e externo. Geralmente é até substituída a responsabilidade do autorreconhecimento e da posição, por uma latente vontade de resistência encontrada em potência no indivíduo – apesar de terrivelmente mal-entendida e ainda pior percecionada pelos outros. Acredito que esta resistência enquanto a resistência moderna, possa ser uma opção vulgar, exclusivamente o resultado de uma noção de perigo, fortemente influenciada pelo simples facto de estarmos perante uma paisagem incerta, como é a de viver neste presente. Pergunto-me o que poderá ser então.

Falo claramente de um campo interior, íntimo e muito particular. Um território desenhado pela consciência que cresce de uma necessidade: a experiência em querer resistir. Indiferente ao seu hospedeiro, este processo de construção fenomenológica é como que uma conversa que começa dentro de cada entidade individual, cada corpo, cada personalidade, no espaço político que reside em nós próprios, e em nós vive. É em si uma conversa com aqueles fatores externos que sem sabermos bem como, incitaram o início desse colóquio interior. Conversa essa que começa nem sabemos bem quando, mas que afetou o que poderia ser um processo autoalimentado e que explode quase sempre, por uma ignição de proximidade. É uma persistência de espaço-tempo geográfico social, assente na razão da pressão de pares pela sua influência, exercida desde múltiplas origens no campo da construção do indivíduo a partir do seu habitat. Esta expressão da dinâmica social entre a origem da influência e a sua manifestação é repleta de inúmeras incógnitas e para ser possível o seu entendimento, devemos processar em primeiro lugar aquilo que devia ser o fenómeno autónomo do próprio indivíduo. Praticamente impossível, o cálculo é de tal forma complexo que presentemente, preferimos resumir esta explicação num jogo de influência bloomiano[4] envolto numa razão revisionista, do que no produto claro da base de ativação social, seja ela interna ou exterior ao corpo social, a participação. A minha participação individual é de tal forma diluída na obrigação presencial coletiva, que se transforma num asco obsolescente, que anonimiza a minha intenção inicial em existir no tal espaço-tempo geográfico e social e me domina, sem qualquer hipótese de fuga.

Coletivamente, é um termo que urge por uma melhor aplicação. Uma que permita navegar para além do seu estado presente e da sua condição banal, para lá da confusão entre resistência e participação. Resistir é hoje uma palavra fácil, usurpada pelos que ousam generalizar a sua importância e a sua capacidade de ativação. É quase um abuso (!) que só encontra eco nas paredes que delimitam territórios de oposição, conflito ou irreflexão, e que evita os sussurros das vozes baixinhas, frágeis, vulneráveis e desesperadas pelo seu próprio tom. O abuso é aqui um mecanismo coletivo, aético por princípio e que age como um sistema de decisões automáticas que preveem um comportamento comum: a luta. Quase sempre coordenada por uma matriz bélica, primitiva e agressiva, a prática do abuso no campo da luta engole o tal tom que desespera por ser ouvido. Resistência, participação e ativação são assim uma massa indeterminada, opaca e que carece de uma revisão epistemológica urgente. Tudo é luta, e desespero. Desespero (eu), quando penso neste mecanismo coletivo e ouso considerar a sua falta de eficácia. Ainda mais, quando tenho de reconhecer que a contemporaneidade se reforça na ausência de ética, pelo modo como ignora o individuo enquanto parte – apesar deste ser o seu propósito inicial. As contradições pedagógicas que vejo neste jogo social de valores e juízos ausentes, são em si a composição de todo um processo de resistência moderno. Habilmente resumido numa única palavra, resistir, o processo da luta é uma falácia contemporânea informal, sobre o domínio das massas e a partir das relações sociais não consentidas.

Penso como seria o mundo se este processo conflituoso de definição do termo fosse o inverso e não ouso sequer sonhar com uma abstração que sugerisse o contrário. Se assim fosse esse mundo seria apenas uma fantasia a tentar substituir uma realidade. Realidade que, perfeitamente imperfeita e insubstituível, é numa única instância: o reconhecimento da existência fenomenológica que determina a prevalência de algo, neste caso, a resistência. Como exemplo desta lógica no seu caso mais extremo, a nossa resistência à morte define a nossa vida mesmo sabendo que inevitavelmente, ela termina. Mesmo assim, continuamos a resistir, vivendo, sabendo que esse fenómeno provavelmente, termina. Dentro do nosso alcance posicional, que apesar de superficial é um ato de confirmação do fenómeno de resistência como qualquer outra construção humana, definimos os termos dinâmicos da nossa atividade coletiva e individual.

Como exemplo prático, a análie de um dispositivo clássico, foucaultiano[5] sob a forma de uma instituição e dos seus valores entrelaçados numa relação entre corpos conformes (um docente e outro discente), define uma relação dinâmica, reconhecível como um aparattus[6] cultural. Esta representação de conformação entre partes é um exemplo da materialização pela simbolização de um sistema e assim, a origem da resistência enquanto fenómeno coletivo a partir da sua fricção social circunscrita num espaço-tempo geográfico e social.

Pela observação do termo e da prática do processo de perceção na sua definição atual, estou a implicar a eficácia da obediência como uma desejada pedagogia de justiça social. Mecanismos enquanto sistemas e aparatos culturais complexos formam um conjunto procedural e dinâmico entre humanos como partes. Só com extrema dificuldade é permitido identificar os processos de conformação individual que obrigam a falar de resistência como ignição e enunciar a sua relação com o reconhecimento do poder como um meio de combustão. Inversamente, é elementar falar de poder como o resultado de um processo de combustão espontânea, e analisar as composições ético-políticas que geram alguns dos mais elegantes exemplos de resistência enquanto fenómenos de ignições controladas. A obediência é a lubrificação mecânica do sistema etnográfico na sua manifestação social e cultural partindo sempre do individual para o coletivo.

RESISTIR, é em si uma perda: primeiro, do medo de agir e segundo, da des/obediência.

PARTE II

Em 1963, Martin Luther King Jr. numa carta[7] que escreve desde a prisão de Birmingham, dirige-se a um conjunto de clérigos (clergymen) seus pares, de uma forma inesperada. Perante o seu estado de encarceramento enquanto resultado direto do seu processo de resistência, revela pela exposição escrita uma capacidade impensável de processar a situação em que se encontrava a partir da empatia, do entendimento e da urbanidade. Ao implicar conceitos avançados de puro carinho em direção ao sistema que reconhece como sendo o seu carcereiro, não está mais do que a sublinhar a possibilidade do seu igual em entender a sua própria condição política e social. Numa conjugação lógica de argumentos clássicos, eruditos e universais, a missiva adquire uma potência muito para além do indivíduo (que apesar de só e limitado pelo espaço de uma cela de prisão e portanto, sem contacto com os seus pares) e descreve um conjunto concreto de valores e princípios que assume enquanto individuo, mas também enquanto representante de uma comunidade política, social e cultural. Individuo, coletivo, sistema, participação, ativação, evolução e progressão são termos que se anexam ao seu processo de resistência e transformam uma carta, um texto, uma atitude, num momento notável da história da desobediência.

A missiva foi escrita em abril de 1963 e começa por admitir a responsabilidade que cada indivíduo tem perante o direito de violar a lei quando esta adquire a forma de uma injustiça. O direito em não obedecer e agir diretamente ao fenómeno, sem ter de aceitar por exemplo, a cadência natural dos dispositivos judiciais em escalar uma questão de direitos civis, é em si uma definição do mais elementar ato do processo resistente.

(…)

Imaginemos os clergymen como um corpo de docentes, que agem dentro de um sistema de regras que não prevê a resistência, e prefere a conformação. A partir daqui podemos comparar como a posição dos pares é passivo-agressiva:

We expressed understanding that honest convictions in racial matters could properly be pursued in the courts, but urged that decisions of those courts should in the meantime be peacefully obeyed.

(…)

A partir deste momento a obediência é posta em causa quando é desproporcionadamente infantilizada e proposta de uma forma inaceitável como o comportamento conformante, relacionada com a impaciência de alguém encarcerado, envolto em insensatez e na anacronia dos seus atos originais.

We recognize the natural impatience of people who feel that their hopes are slow in being realize . But we are convinced that these demonstrations are unwise and untimely.

(…)

Apesar de saber que as instituições não garantem a democracia e igualdade, refugiam-se em procedimentos, processos e particularidades para sua própria proteção.

When rights are consistently denied, a cause should be pressed in the courts and in negotiations among local leaders, and not in the streets.

(…)

Um puro ato de resistência num panorama conservador, onde o limite já tinha sido testado e ultrapassado numa demonstração inegável de submissão, habilmente contrariada pela elegância da paciência e erudição.

(…)

E agora imaginemos o encarcerado, dirigindo a sua resposta ao seus pares clérigos, enquanto acusado de ser imprudente e inoportuno (unwise and untimely), sussurrando o seu tom paciente e razoável (patient and reasonable terms) com empatia e vontade em disponibilizar-se como um elemento da sua própria pedagogia a favor da situação atual.

In any nonviolent campaign there are four basic steps: collection of the facts to determine whether injustices exist; negotiation; self-purification; and direct action.

A Carta de Martin Luther King desde a prisão de Birmingham é uma importante peça de literatura que expressa a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. A carta foi escrita em 16 de abril de 1963, enquanto King estava preso por liderar protestos contra a segregação racial em Birmingham, Alabama. Aqui está um breve resumo da carta:

King começa a carta explicando por que ele estava em Birmingham e por que ele estava liderando protestos não violentos. Ele explica que ele estava lá para lutar contra a injustiça racial e para trazer à tona a opressão sofrida pela comunidade negra.

Ele continua discutindo as acusações feitas contra ele e seus companheiros ativistas, que foram rotulados como “extremistas” e “agitadores”. King argumenta que o verdadeiro extremismo está na segregação racial e na opressão, e que eles estavam simplesmente lutando pela justiça e igualdade.

King então passa a discutir a natureza do protesto não violento e como ele acredita que é a única maneira eficaz de lutar contra a opressão. Ele enfatiza que o objetivo do protesto não violento é criar uma tensão criativa que possa forçar aqueles no poder a agir.

Ao longo da carta, King ressalta a importância da ação direta e da desobediência civil não violenta. Ele argumenta que essas táticas são necessárias para criar mudanças reais e duradouras em uma sociedade injusta.

King também fala sobre a sua desilusão com a igreja branca e os líderes religiosos que se recusaram a apoiar a luta pelos direitos civis. Ele acredita que a igreja deveria ser um farol de esperança e justiça, e que a falta de envolvimento dos líderes religiosos foi uma decepção.

Por fim, King conclui a carta com um apelo à unidade e solidariedade entre todas as pessoas, independentemente de sua raça ou origem. Ele acredita que a luta pelos direitos civis é uma luta pela justiça e pela igualdade, e que todos devem se unir para alcançar esses objetivos.

PARTE III

Errante certo

Vaguear, errar, reconhecer, decididamente melhor as paisagens por onde nos devemos mover, numa leitura do campo e da prática deste território disciplinar que se assume responsável pela construção do nosso habitat através das suas normas sociais.

Paisagens incertas

Vaguear por entre paisagens, onde nos encontramos com os tesouros que recolhemos sob a forma de experiências de que nunca realmente somos os seus donos. Por entre mestre que anexamos num mosaico de carinho hipócrita, que aplicamos como operadores da garantia e manutenção da nossa prática disciplinar.

Carinho sem cuidado

Somos corpos num corpo mutilado, indiferenciadamente. Somos um espectro coletivo, rodeados dos fantasmas de uma paisagem disciplinar que opaca o ponto de onde partimos.

  1. Errante: tradução do autor, selecionada a partir da obra de Caspar David Friedrich: Der Wanderer über dem Nebelmeer, 1818. Uma obra enquadrada pelo período romântico que representa um homem perante um desfiladeiro rochoso, enquanto observa uma paisagem caracterizada num espesso mar de nevoeiro. Uma relação entre o sublime e a autorreflexão, feita a partir da evocação da paisagem e da contemplação do homem perante a constatação da sua deriva no tempo da sua vida.
  2. Legenda da ilustração do autor com a seguinte descrição: “… a espessura de uma ação pode ser medida e posicionada no meio de tantos agentes de tensão. A linha, paralela, perpendicular, seja numa relação angular normal – ortogonal – ou mais ou menos aguda, é sempre uma profunda oportunidade de ser obtusa, ampla e superior aos ângulos que se consideram retos.
  3. A Inconformada foi uma exposição artística, promovida pela AEFAUP em 2022, enquadrada pela pratica da arte visual, performance e instalação, baseada em conteúdos materiais privados e íntimos da instituição de ensino FAUP.
  4. Harold Bloom em A Angústia da Influência: uma teoria da poesia, publicado em 1973 define um conjunto de fatores como operadores da originalidade e rácios de influência entre autores: Clinamen, Tessera, Kenosis, Demonização, Askesis e Apophrades A comparação com este sistema de termos e categorizações de influência entre autores, transposto do campo literário, age como mecanismo de relação entre o indivíduo e a sua posição perante o coletivo. Surge como uma interdependência causal entre ação, reação e efeito considerando como ponto de partida o ato de resistência. Seja individual, interior, coletivo ou exterior, presente, não é garantidamente, um ato original.
  5. Foucault, M. (1977). As confissões da carne. (entrevista)
  6. s Frost, T. (2019). The Dispositif between Foucault and Agamben. Law, Culture and the Humanities, 15(1), 151–171.
  7. Rieder, J. (2014). Gospel of Freedom: Martin Luther King, Jr. Letter from Birmingham Jail and the Struggle That Changed a Nation. Bloomsbury Publishing USA.