Architecture Writing Prize 2022

Campo

De entre as inúmeras publicações diárias, nos maiores portais de divulgação e comunicação de projetos de arquitetura, reconheço a todos, uma estreita correlação entre a observação (como empirismo construtivo) e a percepção (como construção sensorial). Este ambiente superficial de comunicação e transmissão de informação, incomoda-me. Não se identifica com a responsabilidade inerente de um agente disciplinar do campo da arquitetura, na forma como a apropriação semiótica pelo utilizador final, afeta irremediavelmente a leitura da prática da arquitetura. Considero como ponto de partida para esta hipótese que: a observação e a perceção da representação de processo e projeto, feita por agentes da disciplina, se encontra num desequilíbrio de valores disciplinares. Esta crise, afeta a competência da mensagem e como tal, as práticas da prática.

A observação como um processo de facto, é a construção dos conceitos transmitidos desde o campo da arquitetura. Este meio de comunicação admite um conjunto de ações de identificação e definição de um projeto como um processo escrito, desenhado, materializado e iminentemente complexo. Ao abordar este pressuposto, sob a forma de um objetivo pedagógico, não posso evitar pensar em como o processo de projeto é cada vez mais uma imagem do seu resultado, e só para muito poucos interessados, uma construção descritiva e justificativa das opções tomadas e ainda a menos, das práticas aplicadas ao processo de projeto. Entenda-se processo de projeto como a conjugação entre a sua materialização (escrita e desenhada) e a imaterialidade das práticas aplicadas pelo seu agente, na forma como configura esse processo, perante a construção ética e política do nosso habitat.

A perceção como significação semântica inerente ao mesmo processo de facto, é antes uma condição imposta (ao invés da sua apropriação natural pelo observador), pelo recurso a técnicas de representação e comunicação subversivas dos princípios orientadores do exercício da arquitetura. Assistimos à prevalência da imagem, por vezes real, outras vezes confundível e virtual e quase sempre manipulada, aceite como a leitura normal (leia-se circunstancial e superficial) dos tais projetos.

O processo composto de observação e perceção não pode evitar uma leitura rigorosa a partir do processo, renegando o resultado obtido, para o campo do gosto. No entanto, obrigar a que qualquer apreciação seja sempre erudita e exaustiva não permite o melhor acesso aos conteúdos especializados por leigos.

Como ultrapassar esta situação de impasse, em que por um lado precisamos exigir dos seus agentes uma exemplar ética, virtude e princípio da prática da arquitetura e por outro, precisamos ter a noção realista que a informação precisa garantir acessibilidade, descodificação e apropriação, para o seu correto entendimento universal? Como garantir tudo isto, sem impor uma ordem absoluta?

A utilização da semiótica como logro não pode ser uma prática ao serviço da arquitetura. A utilização de um sistema de representação baseado em questões superficiais, efémeras e contraproducente com a responsabilidade que a disciplina da arquitetura e dos seus agentes tem, na construção do habitat contemporâneo não pode ser deixado ao acaso. Impor uma ordem absoluta da prática da disciplina não evita o reconhecimento de todas as possibilidades de práticas elementares do campo da arquitetura.

EN

#field #practice #observation #perception #loss #spectrum #ghost #pedagogy #process

Architecture and Representation

observation, perception and loss: of spectrums and ghosts

Among the countless daily visual publications, systematically disseminating architectural projects, I can accuse in almost all of them, a frailty correlation between observation (as constructive empiricism) and perception (as sensorial construction).

This perfunctory environment of mass dissimulation and lubricated transmission of information disturbs me. 

A positional dispositif (where one can measure the hubris of an agent inflecting the misuse of a semiotic appropriation by the end user) irremediably affecting the pedagogy of an architectural practice. It is as if both representations, of the process and of the project, are stranded in an imbalance of disciplinary values, perhaps between seeing and perceiving.

This crisis affects the entente of the message and, as such, the practices of the practice.

Observation as a de facto process is a contextual assimilation of concepts transmitted from the field of architecture. This activity as communication admits a set of actions that identify and define an architectural project as a written, drawn and imminently complex process. If this assumption is approached as a pedagogical objective, one cannot avoid thinking about how the design process is increasingly just an image as a result, and only for a very few interested spectrums, a descriptive construction of the options taken towards a project. Dramatically, only to an even fewer inquisitive minds, these predicaments are expanded to the acknowledgment of which practises sustain observation. Unfortunately, this field entanglement is not transmitted as the combination of its processual materialisation (written and drawn) and immaterial practices (ethical and political) and broadly communicated as the architectural project.

Perception as a semantic meaning inherent to the same de facto process is surprisingly an imposed condition (instead of a natural appropriation by the observer) of the use of representation and communication techniques. Immensely subversive of the elemental principles of the exercise of architecture, we witness the prevalence of the image (sometimes real, sometimes confusing and virtual, and almost always manipulated) accepted as the normal practice, inevitably circumstantial and superficial, of those architectural projects.

A process of perception cannot avoid the need for a rigorous definition of the perceived process, at risk of orientating the obtained result to the innocuous field of taste. However, mandating that every appreciation is always an erudite one, does not provide universal access to perceivable content by laypeople.

How to overcome this impasse, in which we need to demand from the agent an exemplary architectural practice while also providing a realistic notion of information, accessibility, decodification and simple appropriation? How to guarantee erudition without imposing an absolute and discriminative order?

The use of semiotics as deception cannot be an autonomous practice at the service of architecture.

The use of a representation system based on superficial and ephemeral values is entirely devolutionary.

The use of the power of architecture in the construction of a contemporary habitat cannot be left unattended to pure chance, urging spectrums and ghosts to save all those images that die immediately after publication.