No campo da arquitetura, a forma como é abordada a disciplina (academicamente) e a forma como é abordada a prática (profissionalmente) devem ser analisadas.
Vivemos no tempo certo para ativar esta análise e desta forma implicar os seus agentes.
ilustração pelo autor: o quinto poder
Recorrentemente, conseguimos identificar as inquietações dos arquitetos na forma das suas dúvidas. Atualmente, é possível resumir este tema nas questões sobre uma ética disciplinar frágil e sobre uma política de produção dedicada ao efémero. É possível que nem todos tenham a noção do que afirmo e por isso, este é o momento certo para agir. Podemos, por exemplo, reconhecer, e ao ler a descrição da mais recente ação pública das esferas institucionais europeias,[1] o quão precisamos de uma mudança. Ao nível político-governativo, a observação da necessidade de uma clara renovação das questões relacionadas com o habitat humano é uma posição tornada pública, mas é na perceção que a comunidade alargada retém da academia e da prática, que a discussão se devia aprofundar.
A academia é o local onde as práticas (e as políticas) da disciplina são endemicamente reproduzidas. O ensino clássico garantiu que os conceitos teórico-práticos fossem transmitidos ao longo do tempo por escritos e pedagogias aos futuros arquitetos, sob a forma de uma normalização curricular assente na produção de agentes na disciplina da arquitetura. É óbvio que depende de cada um desses agentes a decisão ética, na forma como aborda a prática da disciplina, após o período de formação individual. No entanto, há condições relevantes no período formativo, registadas durante o período de estágio (treino) e manifestadas posteriormente na autonomia da profissão (prática) que me interessam identificar. Especificamente, o quanto o ensino praticado na academia ocidental (europa, américa), durante o período de globalização do movimento moderno, na sua promessa de solução dos problemas sociais inerentes ao habitat urbano. Defendo que, através da crítica ao método de projeto, primeiro ensinado e depois praticado, acumulamos o quadro necessário para iniciar as questões, não só sobre o período mais recente da nossa história, mas também sobre a sua relação pedagógica com os conceitos mais elementares da disciplina (ex.: a tríade vitruviana ainda se mantém válida?).
citação do autor: O método de projeto é uma das ferramentas mais poderosas da disciplina da arquitetura.
A partir da leitura dos componentes fundacionais da disciplina posso invocar discussões mais alargadas, onde não podemos recusar a inclusão de conceitos como a ética, a virtude e o princípio na possível reparação dos diversos constituintes do plano intelectual, influenciado pela academia. Especialmente na sua dialética com o movimento moderno, já são largas as décadas de submissão da arquitetura ao interesse e à parca moralidade na construção do habitus.[2] O território, a cidade e a casa, são modelos, reproduzidos exemplarmente e refletindo sobretudo, a “colonização” da pedagogia académica, por uma visão dependente do denominado conhecimento ocidental. Esta repetição de modelo, é assente na política defendida pela forma “industrializada” de projetar do movimento moderno, seja pela abordagem, pelo processo ou pela solução. A metodologia ensinada de projeto, mas também de pensamento, é ainda e claramente transportada para o mecanismo de decisão das instituições políticas, aí praticada através dos seus agentes devidamente “colonizados” pelo período de contacto com as academias.
figura 1 ilustração do autor: perfil/seção pela via panorâmica_FAUP na relação dos anos académicos com a altura dos edifícios/blocos de aulas futuras relações de poder
Na prática, vivemos uma outra questão da repetição, primeiro de estilo e depois da ausência de posição crítica, tanto individual como coletiva. Talvez não exista a possibilidade de posição, mas o facto é que o espaço é preenchido por “sermões” que transportam os mesmos problemas para as respostas. Principalmente no urbanismo, evita-se implicar o estudo aprofundado das questões da maior relevância no processo de decisão. Talvez por falta de contexto apropriado entre mecanismos e agentes, é mais fácil carregar os mesmos pressupostos numa atitude de good enough[3] do que defender a melhor solução, como a única solução para a irrefutabilidade do processo. Este estado de conflito é à partida uma oportunidade perdida para uma construção fluída e evolutiva do território, seja aplicando os conhecimentos elementares da disciplina, tanto quanto ativando sugestões de solução alternativas desde outros campos do conhecimento humano. A urbanização, a hierarquia entre meios de transportes e até o loteamento, são exemplos de figuras morfológicas em constante discussão, sem que seja clara uma tomada de posição do modo necessário de praticar a arquitetura por quem a deve decidir. Há exceções, poucas. Mesmo que a academia provoque a discussão, a alternativa ou a solução, a prática prevalece na sua preguiça da prática comercial ou então na exceção. Como resultado, olhamos em volta e vemos.
citação do autor: O poder decide a arquitetura e a arquitetura depende exclusivamente do poder. Assim vai a pólis.
[1] “O novo Bauhaus europeu é um movimento criativo e interdisciplinar em desenvolvimento e no qual todos podem participar” https://europa.eu/new-european-bauhaus/about/about-initiative_pt O novo, portanto, renovador; Bauhaus, portanto, ideológico e de base claramente académica; movimento criativo e interdisciplinar, portanto, dedicado ao cruzamento da arquitetura e do design com outras disciplinas complementares. No entanto, é para mim claro que o pressuposto e até o rapport do termo Bauhaus, não vão ser suficientes para apaziguar a dependência contemporânea, dos mestres (depostos?) do passado.
[2] Pierre Bourdieu, aplica o conceito de habitus no campo da sociologia como reflexão sobre o papel da academia na promoção de influência social.
[3] trad. pop: menos mal