Coerente

Pouco importa o que fazemos, excepto nascer.

Independentemente do que se venha a desenhar como vida, a morte, tal como a sombra, equilibra a noção de viver. Mesmo assim, prefiro arriscar aprender como o fazer, o desafio.

Imaginar viver sem morte é, em si, um ato desesperado. Sem precisar ser repúdio ou negação, imaginar sequer este cenário é deveras perturbador. Sem um fim, como significamos o durante? É um conceito extraordinário, que não pode ser confundido com a imortalidade. É como o estado das pessoas que não conseguem esquecer. Imaginem viver assim, a lembrar tudo, talvez sem conseguir perdoar, ou talvez em conflito com a maior alegria, a da nostalgia.

A patina da vida é em parte saber que esta tem fim e outra parte perder a noção da própria vida. Ao saber a noção do fim colaboramos com o tempo, de uma forma inquestionavelmente produtiva: por dedicação suprema ao percurso. Ao perder a noção da vida, damos atenção ao tempo após, o da ausência.

Esse tempo é fascinante. O que será de mim quando já não for uma presença? Serei uma memória ou uma lembrança? Serei nesse estado, proporcional à minha descendência biológica? Deixo algo para trás, ou fui só esse fluxo de energia que se transformou de novo?

Sim, essa energia sou eu. E pode ser cada um de nós. Somos uma troca temporária da matéria, entre a condição consciente da existência e a nova matéria da ausência. E é tão fácil aceder ao que somos, basta parar em frente a nós próprios. O que vemos é o que temos que ser. Se por acaso essa imagem não corresponde, o “fim” não será coerente.

Gosto da frase de um autor desconhecido que diz que “vive a aprender a morrer”. O que eu acho curioso, até porque todos aprendemos (sem alternativa) a viver. Uns melhor, outros pior, mas raramente dedicados ao futuro pós existência. Porque será?

— the monstruktor

Text

January 4, 2022


FOR ANY QUESTIONS