Classe

Apetece-me dizer que durante o tempo que passou não gostei mesmo nada que tudo tenha ficado tão igual. Até houve quem mudasse, mas foram tão poucos, ou então foi de casa. As moratórias deram muito jeito. Se alguns pouco ou nada mudaram, muito poucos evoluíram, e a semântica é transcendental.

Começo por filas. A pé ou de carro, dá igual. Filas intermináveis para coisa nenhuma. Comprar, principalmente, mas também para mostrar que até têm um automóvel moderno, com luzes ligadas de dia, a ser pago sabe-se lá como, ao banco de que todos somos donos. Um ouroboros, ou uma pescadinha de rabo na boca para os ocidentais. E os testes! Tchiiiiiii, ninguém vai à bola sem reprovar! São aos 50 mil de cada vez, mas dentro das regras…

Continuo pela opinião. Sim, a opinião pública, não é a minha, mas a que domina, mascarada de entretenimento, o horário “nobre” do país. São horas intermináveis de desinformação, comentário saloio e dramático o suficiente para provocar cortes auto infligidos na axila. É a variante prevalente e é impressionante a falta de pudor (já para não falar de síntese jornalística) rigor e até honestidade. E são todos iguais, os canais. Safa-se a 2 ou não fosse eu um snob, artista, culturalmente ativo, blá blá blá…

Saúde, educação, economia, tudo vai mal. Pelo menos é isso que se entende por política. Não interessa como está, só que está mal, uma miséria, nunca foi pior e assim não dá mais. Convoquem-se novas eleições, principalmente, porque estão previstas na democracia. Depois, porque dá jeito o tempo de antena. Ah, e dá para mudar de tema, que já toda a gente ouviu falar das férias dos famosos nas ilhas do Pacífico. É como o povo, e nada contra, mas há limites para a preguiça participativa, a falta de interesse. Sei lá, ficava feliz com uma pequena centelha de urbanidade e cidadania, mas não há. Está tudo em casa, a ouvir os outros a formar as suas próprias opiniões, enquanto olham o telemóvel naquela gestão multi tarefas do único neurónio disponível. Gelados com a testa!

Convoco agora todos os processos falhados, sejam os de largo espectro, como as oportunidades perdidas de reconfiguração da nossa própria vida; sejam os de pequeno impacto, como o das reivindicações hierárquicas superiores de decisões democráticas em júri de pares, sendo assim nada mais que a identificação de processos subliminares de novas e mesquinhas colonizações (com cartas públicas de ambas as partes, de outras partes e assinadas de cruz).

Homens musculados por pós(z)es, mulheres sufocadas por leggings, crianças com o queixo no peito, à mesa e portanto com a testa na sopa (sopa, pfff nem sabem o que é isso).

Mentiras em todos o lado e nós, compra. A sociedade a ruir e nós, até nem vamos mal. Aproveitemos mas é esta oportunidade, que amanhã há mais. Somos uns perdulários. Eu também, atenção…! Mas não consigo deixar de me deter pela beleza do mundo como ele é, mesmo que o que vejo seja o que gostava de ver diferente. Se assim fosse possível, todos teríamos um mundo nosso, à nossa própria imagem e isso seria muito feio de mostrar. Já basta este!

— the monstruktor

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January 1, 2022


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