Perdor

A perda é dor? Porquê? Talvez porque não sabemos designá-la de outra forma, ou então é mesmo isso, dor. E se essa dor for como o amor: um sentimento genérico, proposto na convergência de emoções, próspero na sobreposição de estados ilusórios?

A dor da perda é real. Perder é real. Deixar de ter. Mas ter algo é diferente de ter alguém. Mesmo assim, na sua maioria, perder alguém significa que ancoramos a nossa dor no sentimento de posse ou propriedade dessa perda. Talvez seja isso que perdemos: o direito declamado de limitar o uso a alguém que tem algo nosso, e nós, algo desse alguém.

Esta manifestação da posse sentimental ou emocional é demasiado primitiva para ser entendida e aceite nos dias que correm… Baseia-se na dor, a forma mais primária de sentir, inibir, limitar, controlar, dominar, etc. que podemos reconhecer como ferramenta de uso do poder e posse. E é assim que queremos aceitar a perda? Com este tipo de dor?

Sou um insensível. Perder um ente querido é doloroso. Sentir a sua ausência no imediato não se compara sequer com a realidade do futuro, onde a amplificação da distância no tempo da perda só pode crescer.

Cala-te. Já viste bem o que é sentir a dor da perda décadas a fio?

Sem impor, quero assumir que há outras formas de sentir a perda, a ausência e a distância no tempo, pela falta de alguém.

Começa pela perda. Nunca perderei ninguém. O seu corpo, sim. A sua presença, não.

A ausência, depende da forma como a companhia se proporcionou, pois uma relação convivial pode ser também procedural. Como aquelas pessoas que completam as frases umas das outras por tão bem se conhecerem no tempo que tiveram juntas. Lembro-me e crio, ensinamentos partilhados por e com, pessoas ausentes, como se estivessem ao meu lado.

A distância depende da escala e da direção que lhe queremos aplicar. O tempo que passou desde, ou o tempo que passa enquanto, são conceitos básicos que podem ser relativos à dor. Uma perda de 20 anos pode ser entendida como completamente diferente de uma perda de 02 meses e nenhuma tem prevalência sobre outra qualquer. A nossa incapacidade em processar o tempo dessa distância, sim.

Perder alguém significa que algo é mau, porque o sentimento resultante é a dor. E se em vez da perda, a tristeza que nos invade pelo fim físico de alguém, fosse substituída pela celebração da sua vida, das suas experiências, e do seu legado herdado em nós?

Há povos que celebram a morte, discutem a ausência de forma diferente, e festejam esse fim carnal. Mas, na verdade, substituem a existência da realidade atual por uma outra, consecutiva a esta, apoiada numa mitologia qualquer, mais apropriada a este medo que nos invade e se coliga, numa única forma coletiva de ser humano.

Se há quem sofra, quem celebre, quem pare e quem avance, com tantos exemplos da forma, talvez assim se explique melhor porque sentimos a dor na perda. O que sentimos é o presságio, o futuro, numa mensagem clara e inquestionável, irrefutável e universal: também nós vamos deixar este corpo. E isso é inegociável com o instinto diário da sobrevivência.

A diferença está em quem transforma a sobrevivência em vivência e constrói o seu futuro estado de ausência, distância e perda implícita. Em quem vive a aprender a morrer.

— the monstruktor

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September 10, 2021


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