Exportar

Portugal está a inverter a famosa balança comercial há já algum tempo, onde a exportação tem um valor maior do que a importação. Assim ditam as regras de uma economia próspera e eficaz com relevo na otimização do sector energético. Nesta equação simples, a prosperidade económica tem como principal indicador a matéria, o produto e a transação, como um balanço feito entre o acto da compra e o acto da venda ( descrição leiga ).

Exportar é um desejo económico.
Geralmente sobre bens, transacionáveis, e identificados em várias tabelas compostas por indicadores e variações, influenciando o valor do bem, desde a origem até ao destino. Para o valor real nacional é considerado na origem o custo da extração, da transformação, da produção. Há também o custo da distribuição, aos quais são depois adicionadas impostos e taxas, consoante a sua posição pautal e decorrente de classificações como a de Nice. Há ainda outros tipos de majorações possíveis, tais como sanções entre mercados, sempre consideradas como penalizadoras do valor inicial, bem como inúmeros acordos específicos regionais, aplicados no destino. Um sistema complexo na perspetiva do custo, mas muito simples na aplicação da taxa.

Portugal, tem uma forte indústria de extração, transformação e produção de quadros superiores, licenciados e académicos dos segundo e terceiro ciclo de estudos. São geralmente provenientes das instituições de ensino público, com o impacto conhecido no orçamento da educação e por consequência, na nossa economia. Há investimento real na extração deste tipo de recursos, com a devida transformação financiada em cada unidade particular. Melhores ou piores não é o interesse nesta matéria pois, procura-se principalmente extrair recursos aptos ( o que podemos considerar a maior parte ). A obtenção deste recurso apto é a grande missão coletiva desta indústria transformadora, não fosse essa a única preocupação que a procura identifica, neste mercado claramente regulado. Por fim, geralmente, para o mercado o diploma basta; a proveniência, já não interessa tanto.

A distribuição, neste caso para o exterior ( seja lá onde isso seja ), para onde normalmente existe capacidade de consumo do recurso, é bastante simples: a partir das politicas transitárias europeias, dos acordos internacionais de acolhimento, ou até do simples acesso a praticamente qualquer território que o passaporte nacional proporciona, os recursos podem ser localmente aplicados. São na sua maioria acolhidos com uma boa taxa de sucesso, em contraste com o território português onde os recursos abundam e o mercado está saturado, e logicamente sem qualquer capacidade de absorção de excedentes.

O mercado de origem não tem então capacidade de absorção total e os mercados exteriores continuam a receber recursos, e desde que aptos, são colocados.

Podemos falar de sobre produção mas, será esse o caso na educação? Existe produção a mais ou unidades produtivas sem critério? Outra conversa com certeza, pois o que interessa afirmar é que esta saturação implica variações no recurso, adaptações contextuais, ajustes impossíveis de imaginar num quadro formativo académico e dá azo a novas estirpes sobejamente conhecidas ( precários, inadaptados, geração isto, geração aquilo … ). Mas não será também nestas mutações virais que surgem novas oportunidades e desafios completamente imprevistos? Ficamos por aqui.

De volta à análise de valor, deste ponto surgem duas hipóteses:
01. a depreciação do recurso extraído
02. a exportação do excedente.
01. a depreciação por sua vez decompõe-se em extinção, usurpação e até canibalização do valor do recurso.
02. a exportação, e visto que não é na sua maioria uma atividade regulada, implica o prejuízo direto de todos os esforços de extração, transformação e distribuição que a política de investimento na educação precisou.

Ou seja, se há recursos ( incluindo os custos facilmente identificáveis ) que “saem” sem taxa para o exterior ( ausentes de classificação pautal e designação de exportação ) e sem relação com possíveis proveitos ( presentes ou futuros ), há um indicador económico com falhas na sua análise, a famosa balança comercial. Simplifico, na saída do recurso como equacionamos o prejuízo tido na sua extração? Há algum tipo de retorno previsto?

Os dados não são limpos ao ponto da leitura e do conhecimento dos critérios de micro escala, os quais, mais ou menos relevantes ( não sabemos ) parecem indicar que há um possível problema na análise da matéria. Se, para efeitos da dita simplificação, nomearmos este recurso como “talento”, não temos ideia do impacto económico que a “exportação” ( espontânea ;)) deste recurso tem para nós. A emigração pode considerar a formação mas não considera nenhum valor individual ( e ainda bem que os tempos de preço por cabeça já não voltam ) mas também não consideram a especificidade da origem das remessas. Ou seja, podemos defender que o valor de custo pode ser amortizado na leitura da remessa, mas não há dados ( e bem, pelo direito à privacidade como forma de regulação comparativa entre recursos ) sobre essa possível amortização.

E isto interessa? É assim tão importante definir os limites da nacionalidade para a distribuição de qualquer “riqueza” científica para além das fronteiras económicas e políticas de uma região? Não fosse o sistema capitalista e não, não interessava para nada; haveria somente um bem universal, sem possibilidade de transação e propriedade, e que seria de acesso livre para qualquer tipo de transformação adicional, pessoal ou coletiva.

Mas para muitos é aqui que surge um novo dilema: como garantir os direitos de base à origem… ? E voltamos de novo ao sistema atual, onde a resposta ( económica ) é dada pela identificação da origem e classificação do bem pela proveniência, neste caso, académica. Esta atitude endémica garante que inúmeros sistemas se relacionem e consolidem dependências onde só interessa a extração, transformação e produção de recursos. É um mega sistema, fechado, apoiado no financiamento público, com múltiplas dependências e interesses privados, que se rege por objetivos tão simples como o ratio entre o número provável de diplomas e o número possível de vagas preenchidas. É mais fácil de perceber o impacto negativo para o ecossistema científico e cultural da humanidade, se compararmos este processo com a famosa indústria da carne…! Há paralelismo entre a poluição e o uso da água que o consumo da carne implica, pela sua escala de produção industrial global ( gerando resíduo, desperdício e excedente ao ponto da exportação desvalorizada ) e, a constante produção de recursos humanos altamente especializados pelas academias e instituições de ensino superior. Somos obrigados a exportar! A qualquer custo, seja por iniciativa do produtor de carne, seja pela necessidade básica de subsistência do recurso científico extraído no tal sistema fechado.

Foram várias as tentativas de mitigação deste fenómeno, das quais me recordo das campanhas de captação de capital aos emigrantes, políticas de retorno e até repatriamento aos necessitados, mas também das campanhas locais de tentação aos recursos de outras paragens, assentes na ideia de inversão deste processo de exportação de talento nacional, para que esses externos se instalem e participem na economia local. Resultado prático: ondas migratórias, geralmente associadas a fenómenos políticos e consequentemente económicos, sem qualquer tipo de impacto visível para nada que não a tal perda de recursos nacionais especializados para outras paragens. E porque raio isso é uma perda? É assim tão mau formar alguém num sítio e que depois, vai trabalhar noutro lugar?

Sempre em movimento, a economia não permite parar para perceber o que realmente interessa, no entanto, encontramos termos como reter ou deter, e que parecem regular um sentimento de posse completamente obsoleto. No entanto, são estes quasi princípios que se mantêm presentes nesta forma de manter o sistema em competição, comparação e lucro. Esta mesma forma de quantificar e qualificar o que é nacional, evitando a noção de global é afinal a grande diferença de base etimológica que pretendo sinalizar.

O recurso e o seu valor podem ser relativizados em muitos factores mas nenhum é tão relevante como o custo. Podemos falar do seu valor científico é certo mas, geralmente, esse assunto é renegado para a ( elite ) do terceiro ciclo de estudos, onde a investigação, a associação e a agregação à instituição de ensino, são ainda formas de promover o grau de pureza e concentração endémica verificável pela proveniência. O valor do recurso não é assim definido pela sua capacidade de produção implícita. Um engenheiro produz riqueza, e desde que o mesmo seja apto, vai continuar a produzir independentemente do local onde pratica a sua profissão especializada. O seu talento só vai depender da sua possibilidade de colaboração, ou seja do local onde pratica a sua profissão.

A proposta que falta discutir é a que assenta na participação distribuída do ensino académico como um custo de extração dedicado à humanidade e indiferente do capital regional ( e portanto relativo ) o que estabilizaria as bases de construção comum de uma sociedade global perfeitamente equilibrada. Percebo que para alguns esta normalização pode gerar perniciosas dominâncias ideológicas, mas será sempre um factor a considerar na perspetiva do acesso e da defesa de direitos universais para os os primeiros e segundo ciclos de estudos. Há processos a decorrer com vista a atingir esta bitola, mas as dinâmicas de ranking e captação de valor financeiro destacam certas instituições exatamente para vertente do acesso limitado e da formação de elites endémicas sem valor real aplicável à sociedade ( salvo muito raras exceções ).

O mal não está em exportar talento, está em não saber o que a palavra implica em quem se exporta e sobretudo em quem acha que o melhor termo para a construção colaborativo do futuro da humanidade é um ideal capitalista.

Exportar é um termo colonizado que interessa repensar.

— the monstruktor

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August 12, 2021


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