Só Ni

Houve um dia como todos os outros.
Mais a norte mas igual. Foi um dia passado onde quase já nem se distingue a fronteira da vila. É lá, onde se encontra uma âncora, como nessa palavra que trocamos desde sempre e entre nós, sobre o nosso vizinho. Por ali, trauteamos siempre unas piadas, rimos e gostamos.

Da chuva, podemos chamá-la de miudinha, de molha tolos. Do céu, veio um tom cinza e alguns medos; destes que não se sabe muito bem como lidar ( cheios de vírus e de receios do presente ). Mas mais do que um dia estranho de verão, estava um dia solto entre nós. Apesar disso, a atmosfera estava carregada. Era bem visível na expressão barométrica que cada um que cruzou connosco trazia. As caras não mentem, e nessa altura a nossa estava ligeira, quase alegre, por estarmos ali, juntos, só a passear.

Mesmo assim o tempo, foi na praia que o passeio começou.
Por um caminho que agora é fácil percorrer, e do qual já nem onde se sabe bem o fim, nem quem o faz. Começou limpo e direto, num passo calmo e sem destino. Pelo passeio, o da rua, o que pode ser visto ao longe, num tom bem marcado, num decoro urbano até propício. Obrigado pelos vidros de cor e alguns pontos de paragem que rematam a paisagem. Muito simples. Bom.

Contudo, o caminho não foi sempre assim.
Primeiro, porque há partes que afinal desaparecem. Depois, porque temos por hábito fugir do caminho traçado. Este dia não foi exceção, por culpa e de repente, fugimos da capela que se obriga na visita do caminho. Procuramos sempre pelos trilhos das cabras, na pista das suas caganitas ainda brilhantes. Encontramos um belo rebanho com duas separadas e às marradas. Com cheiro de animal e relva recém comida, deu-se uso às botas e como se de uma surpresa de tratasse o caminho faz-se bruma. Rola com o vento frio, que por acaso não estava assim tão contente e faz-nos sentir pequenos, como só o mundo sabe como cria condições de gente. Pedras, irregulares, fazem o caminho mais difícil. A chuva volta e negoceia com o danado casaco o insuportável calor do corpo na humidade da primeira hora de caminhada. O caminho reaparece e assim, decidimos aumentar o passo. Surge no horizonte o objetivo a ganhar para o almoço fora, bem merecido, neste dia de descanso estival. Vamos ao lado de lá, dizer olá do rio ao nuestro vizinho habitual.

Vamos. E continuamos a andar.
Sem arfar, que de velhos estamos pouco, e seguimos num ritmo andante. Lá, fomos. Adoro fazer assim, sair e seguir, sem destino ou plano, sem compromisso que não a contemplar o meu mundo, que hoje se também se fez nosso. Pelo mar, junto, mas também a rodar pela linha de ferro. A ver nas curvas do trilho as histórias de quem por lá passa e de quem de lá vem. Mas também, as de quem de lá é ou de quem de lá gostava de ser. Marcantes, também estes encontros são como os passos : consecutivos e sempre numa direção original.

Hortas,
quintais,
fachadas
e assuntos fulcrais.
Humanidades,
que entre nós
são temas normais.

Neste tom quase dava para cancioneiro, mas até nisso às vezes jogamos, a dois. É só para desafiar e espicaçar a memória. Não seja assim, e perdemos a hipótese de cuidar, de manter a mente e o corpo num só músculo vivo.

Distraídos, damos pelo caminho dividido. Passado o sítio do banhista, acaba a ligação ao mar e temos que voltar à estrada para seguir o trilho do caminhante ou então voltar. Mas, aqui há caminho, pelo pinhal. Onde será que acaba? Óh!

Vamos.

Neste início, acabam os carros.
Mau era, se no pinhal há carros, mas há trilhos de outros assim. Um par, de volta ao urbano deixa-nos essa ideia para trás. Filha instalada no banco, a mala aberta de tralhas que tais e a saída para outro lugar de estar. Um schnitzel brinca vivaço por perto de um rapaz, por coincidência meu conhecido dos tempos de curso.

Seguimos normais e cedo deslumbrados, quase ofegantes, excitados, mas pelo cenário que sempre procuramos, o do tema natural. É por isto que sinto que sou de fácil agrado. Basta pouco e bom, natural e feito pelo tempo e estou em modo de gostar. Ahhhh. Parece mentira. Como viemos aqui dar. Olha, cheira, que maravilha. Que calor. Este casaco, agora à cintura. Sem vento. Raízes, caruma, os finos e afinal triângulos que caem aos nossos pés. Pássaros, barulhos típicos de conversas com tópico naturais. Um tónus da mente, essa massagem pela mensagem do olhar. Assoberbados, de novo, pelo génio do lugar.

Parámos.

Um assobio, um grito e aflito. Uma chamada, de homem. Um pedido de ordem. Passos em trote. Corrida desesperada. O que se passa? Pára. O radar faz a cabeça rodar. Um desafio! Oupa. Que se passa? Ouve! Schhhh. Psst, olha. Quem vem até nós? O que é? Ouve. Deve ser… É.

Anda cá! Schiu. Que imagem gravada em mim. Cheira. As costas da mão. Pára. Junto. Perna, perto. Agarrou. Colo. Protegeu. Acalmou. Parou. Lambeu. Afagou. Pronto…

Fiquei pura e simplesmente parado.
Extasiado e completo.
Esta mulher surpreendente, surpreendeu-me de novo.
Que coisa mais simples de ver e no entanto tão natural nela. Nunca me enganou, digo-lhe tantas vezes : tens tanto de mulher bela como de bela mulher. Naquele pinhal, naquele dia de verão, onde até o céu se abriu por momentos, e luziu até ao chão, vi o que não esperava ver mas que de surpresa teve só o momento.

Devolveu, e o rapaz nem percebeu, o que ali bem se passou.

A calma, o domínio da situação.
Um animal, em fuga, dissuadido pela elegância do seu poder, magnânimo. Que benevolência natural, um animal, desconhecido e possível de fazer mal. Um animal que encontrou nesta mulher o abraço do carinho sem pedir igual. Já nem sei se macho se fêmea, se raça sequer interessa, porte ou afins, mas por certo é, que fiquei na ideia da potência maternal. És mãe. És perfeitamente admirável. És um fenómeno natural.

Forte como só um forte no meio do mar.
Mesmo no centro, no pico da foz, fundeias pelas ancas rígidas de portento e semeias o teu poder ao vento. É nele que navega o teu cheiro e eu sorvo-o à distância,
pois nem só de vista te percebo
e sei como me desprotejo
da tua maresia
e me encanto.
Assim me deixas inanimado,

húmido e tolhido,
colhido pela tua beleza em ser,
só tu.

Ni.

Continuamos, para ganhar o farnel.
Até outra ponta, onde cheiramos o rio.
Decidimos andar, vimos os barcos,
mesmo sabendo não haver destino de estio.

Passamos no meio de gente
perfeitamente sozinhos,
nós não os outros,
e voltamos de comboio,
porque de vinte já ia a conta
e de memórias gostamos tanto.

Voltamos ao nosso dia,
que ganhamos só por existir.

— the monstruktor

Text

November 13, 2020


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