Programação

Sinto-me a passar sobre o esperado.

Melhor, ultrapassar. Sim, porque passar é um acto previsível e não demonstra totalmente a superação que vivo. Este termo ( ultrapassar ) define bem o conceito de ultra, último, extremo, superior. Neste caso, superado. Ultrapassar é passar o extremo, e isso é exatamente onde me posso afirmar e situar. Acordado, dominante, vejo com clareza o que me importa e o que me implica. Dessa forma posso ser algo meu e ( aí sim ) passar para um outro estado de programação.

Programações tenho as minhas, relativas a mim e as que decididamente influenciam Outros. Também as tenho claras, as que aplicam ou impõe vontade e disso tratei em vida para que não reste dúvida de como quero viver após a minha morte. E aqui me situo. Aqui me ponho.

A minha abordagem neste ponto foi então perceber que essa singularidade, onde reconhecemos a posição individual que queremos ocupar perante este mundo, depende totalmente do contexto de originalidade, o que permite o que podemos prosperar. Sendo originalidade o ponto de origem de algo e não a diferença entre algo é também clara a distinção entre o que impomos e o que somos impostos.

Conscientes e inconscientes, por vezes misturam-se em termos e definições arrogantes da mais variada ordem, onde se demostram os limites desses termos comparativos sem qualquer valor adicionado. Um exercício social, naturalmente instintivo e sem programação original.

Originalidade é um estado programado, não é um estado natural, onde termos como vocação ou talento são as fantasias que gostamos de usar para nos afastar de o atingir. Programação é um processo original de posicionamento individual e por isso não depende de aptidões sugeridas ou outras demonstrações de arte ou ofício. Programar depende da origem, do processo e do ponto onde, a partir desse resultado, se aplicam novos processos de posicionamento e construção.

Nada disto importa noutros estados de domínio sobre certas matérias, mas para mim a metafísica impera. Quem sou e o que faço tem sido procedente sobre como sou e como faço e isso deve ser relativo também a esse estado. Para quem importa a forma, o processo não facilita, pelo contrário, impede, atrasa e por vezes não clarifica que ele existe como um ato consciente. Duração, intensidade, profundidade não podem ser evitadas para mim, a quem o processo é fundamental e o resultado é então uma evidência consequente e não o objetivo primário de qualquer acção ou atividade. É na esfera pessoal que temos menor domínio sobre este ponto, onde somente a epitome de qualquer relação é o resultado prático do momento, descurando assim o processo que o proporciona.

Neste estado em que vivo, Vivo de outra forma, procedo de origens em origens para a criação de percursos claros e evidentes do estado de ser original. Programo assim a minha vida em unidades de contacto e interações de duração, intensidade e profundidade originais, e isso é-me devolvido com a força misteriosa e clara da minha Morte.

— the monstruktor

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September 18, 2020


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