O menino azul

A casa do menino azul tinha uma janela alta. Era alta porque ele tinha decidido que a queria assim. Não era grande em altura, era alta pelo sítio onde se punha a olhar para a frente. Podia ser porque podia ser ainda mais alta do que as das outras casas mas desconfio que só era alta porque a queria para se sentar no parapeito a ver as tais outras casas. A casa também era alta, tinha uma proporção desengonçada e aquela janela dava-lhe uma ar janota, interessante. Dependendo do ponto de vista a janela enquadrava a casa, tanto quanto a casa quase disputava o sítio da sua própria janela. Estranha mas interessante, era assim que ele a via, e sentava-se à tal janela a falar.

A casa era assim para o empinada, com um remate dourado em volta da janela, amarela e enquadrada por um mármore simples mas elegante. Por isto fazia pensar no valor que afinal a casa tinha, e bem que podia não ser afinal a janela a valer a casa, mas a casa a valer-se da sua própria janela. Poucos sabiam e até tinham pensado, para que servia tão alta, mas que até ali nunca tinha existido memória dela. Mas era bem bonita a janela. Dava à casa um ar convencido, dirigido, pretensioso mas humilde. Talvez existisse desde sempre, mas é certo que nunca ninguém reparou e só quando o menino decidiu que era altura de a mostrar é que todos se puseram a opinar. Fica a dúvida, na certeza que assim estava bem e que foi assim que a casa ficou melhor.

Falar nisto, faz-me pensar nessa primeira vez que fui lá e o menino azul se sentou comigo a falar, no parapeito dessa tal janela alta. Dava para ver muita coisa, não dava para ver tudo, mas dava para ver o que ele queria, e no início ele só queria falar e poder partilhar o que sabia.

– Sinto-me a mudar muito, talvez demasiado. Fico assim, angustiado. Sem susto, mas fico a pensar que mudar custa. Ando mesmo a mudar muito. Mais do que as marés mas não tanto como a lua. Mudo de tempos a tempos e sinto-o na pele. É um ritual, um ciclo que se sente na força da maré e na luz da noite. Parece um folclore pessoal, onde muda o cheiro, o toque e a noção de mim. Fico entusiasmado, mais atento que o normal e mudo. É assim.

Era desta forma que o ouvia falar de verdadeiras catarses! Às vezes nem dormia, a pensar no que seria, talvez verdade, talvez sugestão, mas que alguma coisa sentia, isso sim, não se podia negar. Ele bem tentava, até já se protegia e até afastava quem gostava, não fosse esse o modo de mudar demasiado. Via-se que se sentia diferente e isso é normal em gente mas ele não era gente assim. Trazia do início essa amargura mas mais à frente já não pensava na forma. Pensava no modo de mudar, de perder o sentido da direção e simplesmente abraçar o que sabia ser bom para si. Sim, chegou a desistir, a recusar, mas sabia que não podia negar que era assim que crescia.

— the monstruktor

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August 3, 2020


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