O relicário andante

Sejam coisas, ações, verbos e sobretudo adjetivos tudo cabe à partida. Mas há também aquilo que não, e segue no porão. Vistas, listas, pontos de eleição, paragens, paisagens lendárias e outros momentos futuros imaginários, são a carga pesada que é levada a sério. Ou serão apenas um #checkpoint a assinalar numa qualquer #bucketlist, numa demanda em forma de missão que nos obriga, pelos outros, a normalizar a nossa própria viagem? São estes nossos hábitos habitantes.

Mas será que voltamos ainda mais carregados? Será que o peso é maior à chegada do que foi à partida? Será que o que transporta vem afinal carregado de coisas novas, ou tem só o pó superficial deste agora?

Esta procissão de relíquias sagradas tem um propósito claro, eu é que ainda não sei qual é. Talvez no futuro saibamos olhar para trás e entender estes fluxos migratórios temporários ( como fazem os pássaros para sobreviver, ou os gafanhotos para viver ) , numa expectativa de aprender, se o que procuramos quando por aí andamos são recursos, ou é só a humanidade de querer encher relicários andantes. Uma vaidade de quem se cultiva ou a vaidade de outro #milestone alcançado?

Na ironia entre quem parte e quem chega, entre quem se adapta e quem se impõe, vejo muito clara a forma desvendada dos caixões que se passeiam pela rua acima, rua abaixo, cheios de um pouco de todos nós.

Qual a religião deste momento? quais as crenças que nela habitam? quais os deuses a quem se reza? qual o perdão final de quem carrega relicários, cheios de ouro e novidade? Chamar-se-á Economia Turística a deusa que guia essa mesma procissão?

Relicarium 2019 @SharedInstitute – Porto, Portugal

O conteúdo real é afinal uma amálgama de intenções, e não pode ser mais do que isso. Falsetes pessoais que definem uma fraca saúde mental e social, quase sempre comparativa pelos media que tanto impressionam. O indivíduo consciente dissociado do objeto e dependente da experiência para validar-se perante o mundo. Quem comanda quem? Onde está o controle?

Os comerciantes de relíquias e objetos sagrados pessoais traficam a nossa matéria invisível, aquela que se esconde em nós. Cedemos : na oportunidade de vender uma memória conservada para sempre; no futuro possível do argumento egoísta de uma conversa centrada em nós; muitas vezes autista; numa partilha que guarda sem vergonha esta viagem como mais um elo do percurso assoberbante que já não é a vida.

“Hoje eu sou isto e muito devo ao que colecionei.”

Serão muitas as vozes assim, tantas quantas as que deambulam porque sim, sem mais sentido, porque a vida ( económica ) lhes permite essa forma boémia de andar por aí. Afinal esse capital será sempre a carga que chega e a carga que parte.

Porto Design Biennale após,

workshop 1 | 10–12 maio 2019
DESIGN SYSTEMS: IMPOSSIBLE METHODS
Por Luiza Prado & Pedro Oliveira ( A Parede )

— the monstruktor