Aceitei a saga do pensamento, resoluto e destemido, como se só da minha coragem pudesse existir. Como se de uma fé irónica se tratasse, destacada pela realidade em querer pertencer aos demais.

Esta viagem pessoal, encadeia tempo e espaço, pessoal e coletivo, numa noção de cultura em constante construção e faz-me pensar em todos os modernos ignorantes que agora são urbanos, muito mais que os provençais.

Que os há, há.

December 2, 2020

1920, não havia testes, nem pagos.

2020, os testes são o bem mais precioso, e são pagos.

2120, que desumanidade pensar que só se tem acesso a pagar pela tecnologia do bem comum.

2220, e pensar que à bem pouco tempo ainda se precisava de dinheiro para sequer viver.

November 15, 2020

A técnica do desenho não prevalece sobre o desenho da técnica.

Espaços, precisam de técnica, é certo, mas a arquitectura faz-se do desígnio, na mais profunda sensibilidade do habitat. Faz-se a partir desse estudo cultural do signo antropológico em permanente evolução.

November 15, 2020

Houve um dia como todos os outros.
Mais a norte mas igual. Foi um dia passado onde quase já nem se distingue a fronteira da vila. É lá, onde se encontra uma âncora, como nessa palavra que trocamos desde sempre e entre nós, sobre o nosso vizinho. Por ali, trauteamos siempre unas piadas, rimos e gostamos.

Da chuva, podemos chamá-la de miudinha, de molha tolos. Do céu, veio um tom cinza e alguns medos; destes que não se sabe muito bem como lidar ( cheios de vírus e de receios do presente ). Mas mais do que um dia estranho de verão, estava um dia solto entre nós. Apesar disso, a atmosfera estava carregada. Era bem visível na expressão barométrica que cada um que cruzou connosco trazia. As caras não mentem, e nessa altura a nossa estava ligeira, quase alegre, por estarmos ali, juntos, só a passear.

Mesmo assim o tempo, foi na praia que o passeio começou.
Por um caminho que agora é fácil percorrer, e do qual já nem onde se sabe bem o fim, nem quem o faz. Começou limpo e direto, num passo calmo e sem destino. Pelo passeio, o da rua, o que pode ser visto ao longe, num tom bem marcado, num decoro urbano até propício. Obrigado pelos vidros de cor e alguns pontos de paragem que rematam a paisagem. Muito simples. Bom.

Contudo, o caminho não foi sempre assim.
Primeiro, porque há partes que afinal desaparecem. Depois, porque temos por hábito fugir do caminho traçado. Este dia não foi exceção, por culpa e de repente, fugimos da capela que se obriga na visita do caminho. Procuramos sempre pelos trilhos das cabras, na pista das suas caganitas ainda brilhantes. Encontramos um belo rebanho com duas separadas e às marradas. Com cheiro de animal e relva recém comida, deu-se uso às botas e como se de uma surpresa de tratasse o caminho faz-se bruma. Rola com o vento frio, que por acaso não estava assim tão contente e faz-nos sentir pequenos, como só o mundo sabe como cria condições de gente. Pedras, irregulares, fazem o caminho mais difícil. A chuva volta e negoceia com o danado casaco o insuportável calor do corpo na humidade da primeira hora de caminhada. O caminho reaparece e assim, decidimos aumentar o passo. Surge no horizonte o objetivo a ganhar para o almoço fora, bem merecido, neste dia de descanso estival. Vamos ao lado de lá, dizer olá do rio ao nuestro vizinho habitual.

Vamos. E continuamos a andar.
Sem arfar, que de velhos estamos pouco, e seguimos num ritmo andante. Lá, fomos. Adoro fazer assim, sair e seguir, sem destino ou plano, sem compromisso que não a contemplar o meu mundo, que hoje se também se fez nosso. Pelo mar, junto, mas também a rodar pela linha de ferro. A ver nas curvas do trilho as histórias de quem por lá passa e de quem de lá vem. Mas também, as de quem de lá é ou de quem de lá gostava de ser. Marcantes, também estes encontros são como os passos : consecutivos e sempre numa direção original.

Hortas,
quintais,
fachadas
e assuntos fulcrais.
Humanidades,
que entre nós
são temas normais.

Neste tom quase dava para cancioneiro, mas até nisso às vezes jogamos, a dois. É só para desafiar e espicaçar a memória. Não seja assim, e perdemos a hipótese de cuidar, de manter a mente e o corpo num só músculo vivo.

Distraídos, damos pelo caminho dividido. Passado o sítio do banhista, acaba a ligação ao mar e temos que voltar à estrada para seguir o trilho do caminhante ou então voltar. Mas, aqui há caminho, pelo pinhal. Onde será que acaba? Óh!

Vamos.

Neste início, acabam os carros.
Mau era, se no pinhal há carros, mas há trilhos de outros assim. Um par, de volta ao urbano deixa-nos essa ideia para trás. Filha instalada no banco, a mala aberta de tralhas que tais e a saída para outro lugar de estar. Um schnitzel brinca vivaço por perto de um rapaz, por coincidência meu conhecido dos tempos de curso.

Seguimos normais e cedo deslumbrados, quase ofegantes, excitados, mas pelo cenário que sempre procuramos, o do tema natural. É por isto que sinto que sou de fácil agrado. Basta pouco e bom, natural e feito pelo tempo e estou em modo de gostar. Ahhhh. Parece mentira. Como viemos aqui dar. Olha, cheira, que maravilha. Que calor. Este casaco, agora à cintura. Sem vento. Raízes, caruma, os finos e afinal triângulos que caem aos nossos pés. Pássaros, barulhos típicos de conversas com tópico naturais. Um tónus da mente, essa massagem pela mensagem do olhar. Assoberbados, de novo, pelo génio do lugar.

Parámos.

Um assobio, um grito e aflito. Uma chamada, de homem. Um pedido de ordem. Passos em trote. Corrida desesperada. O que se passa? Pára. O radar faz a cabeça rodar. Um desafio! Oupa. Que se passa? Ouve! Schhhh. Psst, olha. Quem vem até nós? O que é? Ouve. Deve ser… É.

Anda cá! Schiu. Que imagem gravada em mim. Cheira. As costas da mão. Pára. Junto. Perna, perto. Agarrou. Colo. Protegeu. Acalmou. Parou. Lambeu. Afagou. Pronto…

Fiquei pura e simplesmente parado.
Extasiado e completo.
Esta mulher surpreendente, surpreendeu-me de novo.
Que coisa mais simples de ver e no entanto tão natural nela. Nunca me enganou, digo-lhe tantas vezes : tens tanto de mulher bela como de bela mulher. Naquele pinhal, naquele dia de verão, onde até o céu se abriu por momentos, e luziu até ao chão, vi o que não esperava ver mas que de surpresa teve só o momento.

Devolveu, e o rapaz nem percebeu, o que ali bem se passou.

A calma, o domínio da situação.
Um animal, em fuga, dissuadido pela elegância do seu poder, magnânimo. Que benevolência natural, um animal, desconhecido e possível de fazer mal. Um animal que encontrou nesta mulher o abraço do carinho sem pedir igual. Já nem sei se macho se fêmea, se raça sequer interessa, porte ou afins, mas por certo é, que fiquei na ideia da potência maternal. És mãe. És perfeitamente admirável. És um fenómeno natural.

Forte como só um forte no meio do mar.
Mesmo no centro, no pico da foz, fundeias pelas ancas rígidas de portento e semeias o teu poder ao vento. É nele que navega o teu cheiro e eu sorvo-o à distância,
pois nem só de vista te percebo
e sei como me desprotejo
da tua maresia
e me encanto.
Assim me deixas inanimado,

húmido e tolhido,
colhido pela tua beleza em ser,
só tu.

Ni.

Continuamos, para ganhar o farnel.
Até outra ponta, onde cheiramos o rio.
Decidimos andar, vimos os barcos,
mesmo sabendo não haver destino de estio.

Passamos no meio de gente
perfeitamente sozinhos,
nós não os outros,
e voltamos de comboio,
porque de vinte já ia a conta
e de memórias gostamos tanto.

Voltamos ao nosso dia,
que ganhamos só por existir.

November 13, 2020

São dias assim
que me fazem pensar,
que só um homem cansado
sabe como descansar.

São dias destes
que se fazem inteiros num momento,
que se libertam aos ventos, lestos,
os motivos de tamanho tormento.

São dias claros,
feitos da luz que os acompanha,
simples portentos
de quem declara,
o amanhã.

November 10, 2020

Voltar à normalidade ou aproveitar a oportunidade para começar de novo? Nem sei porque há dúvidas.

November 3, 2020

Vive a pandemia, vive na pandemia ou sobrevive à pandemia.

October 29, 2020

Discuss unbuilt projects, methodologic systems, research in a commercial practice environment, polymathic practices, decolonising architectural training, contextual positioning, architect’s ego, architecture turn/exit and perspectives about the future of the profession.

October 26, 2020

A leitura do não verbal tomou a dimensão humana de assalto. Fez perceber que o que estava garantido, como que desapareceu debaixo dos nossos pés. Esse chão que desapareceu foi somente a realidade a anunciar-se.

October 25, 2020

Start decolonising methodologies. Defund academic endogamy. Stop conditional knowledge. Refurbish pedagogy. Position systems. Prosper.

October 23, 2020

The opportunity to question what’s instituted and the institutions.

October 18, 2020

O design enquanto disciplina é obra de uma elite intelectual, informada, interessada e participante. O design enquanto manifestação é facilmente confundido com o resultado prático e seguro da solução visual. A metodologia corrente da passividade institucional sobre este assunto não irá transformar um assunto de nicho para uma realidade/generalidade no curto prazo ( ou sequer alterar essa relação de acesso e difusão ). Há quem não queira saber do futebol como há quem não queira saber quem, por comparação a um cão de rua, sugeriu o cinismo como doutrina.

October 18, 2020

Cada dia que passa o dinheiro toma diferentes formas para mim. Pensava eu que as realidades conhecidas de certos objetos, nomeadamente a forma reconhecível do dinheiro, não seriam nunca questionáveis no uso e função. Mas são.

Enganei-me, ou aprendi, não interessa, o que interessa é que a “forma” do dinheiro para mim, mudou. Deixou de ser uma única estrutura de matéria visível, representado as fronteiras e todos os outros limites impostos pela sua presença e passou a ser um conceito abstrato de relativa importância e uso.

Prefiro ter água comigo do que o bolso cheio de notas, pois dependo continuamente da primeira matéria, tanto quanto relativizo a necessidade e a intermitência da segunda.

O dinheiro é um conceito e não um bem, valor, ou comodidade. É um limite, uma condição e uma realidade incontornável para nos deslocarmos sequer no nosso mundo próximo. Mas é também possível de identificar e relativizar. É possível de evitar e propor alternar.

Será esta a primeira oportunidade em que desvendamos a imagem real do mundo. Sem a sua presença percebemos que é necessário somente para que não tem mais nenhuma opção disponível. É desnecessário numa proporção maior do que alguns vez imaginamos e quando assim é os valores maiores que o dinheiro assumem o seu papel individual.

Solidariedade, bondade, empatia e simpatia, cordialidade, urbanidade e cidadania, educação, formação e treino, humildade, dedicação e profissionalismo. Honestidade. Estes são alguns dos meus valores, os principais e impossíveis de comparar em valor com o dinheiro. São estes os meus bens, que guardo e faço render.

São estes os meus valores e a minha fonte de riqueza e que assim me considero e chamo de rico pois esta é a nossa verdadeira riqueza ò Júlia…

October 17, 2020

O egoísmo consumista, supérfluo, superficial, recorrente e transversal, ausentou do espírito o sacrifício.

Perante o novo normal, o sacrifício é só a forma de cuidar, proteger e garantir a liberdade de todos pelo nosso próprio exercício consciente e individual.

Reivindica-se a liberdade pelo barulho dos inconsequentes criminosos que levarão essa virtude à podridão, decadência e morte do princípio básico da vida social, o respeito do meio pelo meio em que nos inserimos e prosperamos.

Assim o prejuízo é maior.

October 11, 2020

A realidade como simulação representa adequadamente a luta entre o presente cognitivo e o acontecimento futuro no passado efetivo. Esta relação de causalidades, ancorada na noção de limite da velocidade da luz e da sua inultrapassável constante de tempo, massa e energia, não me serve.

Para o mundo, esta evidência é um engarrafamento claro entre sinapses e as oportunidades credíveis de avanço e progressão.

Para mim é a ausência de posicionamento crítico, individual, onde o intelecto e a matéria convivem numa velocidade espacial de progressão constante entre a superposição quântica e o inimaginável cenário cosmológico.

A mim, interessa-me a interferência do meu corpo com o interface sensorial dessa realidade consciente e emocional.

Neste contexto mundano, sou relativo à minha massa e energia, sou dinâmico e movimento-me.

Estas regras satisfazem-se somente pelo meu corpo.

October 7, 2020

Há tanta gente que ama e tão pouca a saber amar.

September 30, 2020

Saudade, melancolia, marasmo, taciturno, bucólico, romântico, são termos apropriados pela maioria para descrever o outono. Talvez seja pela luz, chuva, temperatura ou primeiras tormentas… Decididamente é pelo tempo que agora somos “obrigados” a passar em casa, dentro dos horários urbanos, abrigados e em preparação do pior que está para vir, o inverno. Racionalmente, percebo a questão, principalmente porque o precedente é o oposto, onde geralmente se usam termos como liberdade, atividade, exuberante, estival, alegria, frescura. Acho interessante a perspetiva negativa, depressiva e opressora do estilo de vida ideal que certos humanos têm desta altura do ano.

Essa transição comparativa é em si o grande catalista emocional da época : uma influência do meio, uma circunstância ritual onde identificamos que estamos a passar de um estado para o outro e onde o nosso conforto físico e mental vem instintivamente ao de cima. Também podemos observar o impacto ( bem menor ) que esta transição tem em ambiente urbano, onde até o clima parece regulado. O conforto desta vida ( urbana ) nem sempre é dependente da meteorologia : uma chuvita aqui e ali, um vento mais forte e tal mas, o passeio, a rua e o modo de habitar continua disponível e a funcionar, por isso, nada afeta ou muda.

Ora, fora do contexto urbano, o cenário é diferente. Em aglomerados médios a definição de urbano permanece, mas daqui para menos tudo muda.

A primeira diferença começa no verão, onde o desprestígio da sobrevivência animal ( humano/não ) não dura o tempo das férias normais.

Segundo, a reclusão acontece em grupo, de uma forma comunitária e preventiva.

Terceiro, esta hibernação forçada garante o tempo de purga que o humano urbano não se sabe proporcionar, e que tanta falta lhe faz. Este tempo para si, ti ou para o eu, é um tempo que garante a força necessária para receber a estação que está por vir e aí sim, garantir a preservação basilar da existência individual nesta certa realidade. Em ambiente urbano persiste o desprestígio desta realidade, principalmente pela garantia proporcionada pelo ambiente circundante, onde tudo é dado como adquirido e se na sua falta, basta passar a tema de revindicação para tudo se normalizar.

Já não sabemos sobreviver e isso é que é o nosso habitat natural. Obviamente que não comparo com o tempo de fugir das bestas para não sermos comidos, mas consigo afirmar que quem “come da terra” está a desaparecer. Falo então do ciclo, da doutrina, da rotina e da comunhão natural com o meio, do domínio do habitat pretendido, não pela subjugação do material e da técnica que só o humano impõe pelo engenho, mas pela ecologia do tempo, do ambiente e da necessidade proporcional ao esforço disponível. Tudo agora é demais, é exagerado, é feito para infligir dano, dolo e destruição.

A equação é esta : o contexto sazonal, a condição existencial, o ato convivial e a subjugação do meio, condição do habitat, pela razão da sobrevivência.

O resultado é um factor mínimo para muitos, com taxa de crescimento exponencial para todos e que certamente alguns vão musealizar neste texto num outono do próximo tempo. Vamos todos ser agricultores, trocar cereais entre nós e artesanato às noites, calmas pela ausência da informação digital! Claro que não, os tempos mudaram, e a nossa adaptação foi por adoração. Deixamo-nos ir nessa crença do progresso a qualquer custo. Passamos a notar menos porque tudo tem menos impacto neste ambiente urbano e social.

Basta sair da esfera da cidade para se perceber como isto é óbvio, claro e fundamental. Essa saída não precisa ser física, basta uma cidade capaz de pensar assim enquanto acompanha o raciocínio proporcionado pela dita equação.

Neste tom, significativamente nostálgico, posso cair na razão do que estou a argumentar diferente, mas se pensarem que as minhas férias se passam assim, talvez concordem com o que desperto e incito a rever. Deixem lá o verão passar porque o tempo de viver não escolhe estação, nem lugar, escolhe somente a ética do ser, na humanidade do querer, algo melhor para mim, que só assim pode ser para todos.

September 28, 2020

Já nem sei se me estou a despedir ou se me estou a apresentar. Nem interessa, sou só eu.

September 28, 2020

Life is not a binary implementation of a past vision, of values and hysterical societies. Life is a multiple set of layers, opportunities and experimental at its core, in which individuals positions fundamental decisions about existence and absence.

September 27, 2020

Olhar para dentro, recusar o modo de olhar para fora, o desse desdém que já nem incomoda.

September 26, 2020